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Novembro 12, 2019

Bolívia: não esqueçamos que inclusão e Democracia são valores fundamentais

Aerial view of a densely populated hillside city with buildings spreading across the terrain, backed by blue-green mountains shrouded in white clouds under an overcast sky.

Em um período marcado pela instabilidade política na América Latina, a Bolívia atravessa um momento de vácuo institucional e tensão nas ruas de suas principais cidades. À frente do Poder Executivo por 13 anos, Evo Morales renunciou neste domingo (10), depois de as Forças Armadas e a Polícia do país pedirem sua saída do cargo de Presidente do Estado Plurinacional da Bolívia, como forma de pacificar o país.

Segundo a Constituição boliviana, os sucessores de Morales deveriam ser, por ordem, o vice-presidente, a presidente do Senado e o presidente da Câmara dos Deputados, que também renunciaram, o que deixou o país em uma situação de indefinição sobre quem o governa. A 2a vice-presidente do Senado, Jeanine Añez, declarou-se chefe do Executivo, na terça-feira (12), mas a decisão não foi oficialmente aprovada pela maioria dos parlamentares, o que significa que a incerteza institucional continua. 

Enquanto o Congresso tenta resolver a crise de sucessão, manifestantes têm saído às ruas desde domingo para celebrar o fim da “era Morales” ou para  protestar contra o que consideram uma interrupção inconstitucional do mandato.

Os partidários da saída de Morales apontam que o ex-presidente não deveria ter sido candidato, depois que um plebiscito convocado por ele mesmo havia indicado que a maioria da população queria que se proibisse uma nova reeleição. Morales apresentou sua candidatura mesmo depois dessa derrota, contrariando a Constituição do país.

Nas eleições de outubro de 2019, a Organização dos Estados Americanos (OEA) foi convocada para verificar o processo eleitoral na Bolívia e identificou pelo menos 250 irregularidades no processo. Com base nisso, muitos analistas consideraram que houve fraude eleitoral.

Já os opositores à saída do ex-presidente afirmam que a sugestão das Forças Armadas de que ele deveria renunciar e a violência que alguns grupos usaram contra membros do governo antes da renúncia de Morales caracterizaram uma interferência inconstitucional. O ex-presidente afirma que foi obrigado a deixar o cargo e que continuará a defender o legado de seus três governos (de 2006 a 2019).

A maior parte dos manifestantes de ambos os lados tem exercido pacificamente seu direito de expressão, mas uma parcela desses grupos infelizmente tem recorrido à violência. Cenas inadmissíveis de perseguição a indivíduos, incêndios a residências e humilhações públicas têm sido registradas pela imprensa local, que também está sob ameaça.

A colorful Wiphala flag with a checkered pattern of rainbow colors waves against a blue sky with white clouds. The indigenous Andean banner displays red, orange, yellow, white, green, and blue squares.
Bandeira Wiphala, símbolo de diversos Povos Indígenas na Bolívia, tremula em La Paz (Crédito: Esteban Ignacio, no Flick)


Em um momento em que o país discute seu futuro imediato, parte da oposição a Evo Morales tem usado linguajar racista para referir-se ao grupos e indivíduos indígenas. Uma parcela dos setores mais conservadores também tem defendido a eliminação de símbolos indígenas adotados como oficiais na nova Constituição Política do Estado de 2009, em reconhecimento à diversidade étnica do povo.

Nós, da 350.org observamos com preocupação o cenário atual da Bolívia e pedimos que os governantes e a sociedade do país reforcem seu compromisso com os valores fundamentais de respeito à democracia, aos direitos humanos e aos Povos Indígenas como pilares essenciais desse período de transição.

Na prática, isso significa que:

  1. Os manifestantes nas ruas, de quaisquer orientações políticas, a Polícia e o Exército atuem de maneira a garantir que nenhum indivíduo seja agredido, preso, torturado ou ameaçado pelas posições que defende.
  2. A Polícia e o Exército atuem de acordo com a lei no sentido de garantir que todas as pessoas tenham seus direitos humanos respeitados. 
  3. Manifestantes e líderes políticos evitem expressões racistas para se referir aos Povos Indígenas e respeitem a diversidade étnica e cultural da Bolívia, uma de suas maiores riquezas.
  4. A Polícia, o Exército e os manifestantes respeitem símbolos da diversidade étnica do país, como a bandeira Wiphala.
  5. A população indígena, por meio de suas organizações, tenha a liberdade efetiva de participação ativa nas discussões sobre o futuro do país, em seus aspectos político, econômico, social, cultural e ambiental. Convidamos os bolivianos de todas origens étnicas a reconhecer que os saberes tradicionais e as comunidades indígenas podem contribuir de maneira positiva para a resolução de problemas complexos.
  6. Os representantes políticos do país debatam seriamente os próximos passos a serem tomados, em especial a realização de novas eleições, dentro de preceitos democráticos e de valorização da pluralidade de opiniões, sem revanchismo e arroubos autoritários.
  7. Reprovamos totalmente o uso da violência em qualquer sentido.

Nas montanhas do altiplano, nas paisagens quentes das regiões de terras baixas ou na beleza diversa dos vales, a livre expressão do povo para alcançar soluções autônomas será sempre o melhor caminho.