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Março 29, 2018

COESUS e 350.org Brasil representam sociedade civil em leilão da ANP

Map of Brazil showing regional data distribution with colored squares indicating varying levels of activity or measurements across different states, particularly concentrated in the northeast and southern regions.
Map of Brazil showing regional data distribution with colored squares indicating varying levels of activity or measurements across different states, particularly concentrated in the northeast and southern regions.

A Agência Nacional do Petróleo e Gás (ANP) realiza nesta quinta-feira (29) a 15ª Rodada de Licitações de blocos para exploração de petróleo e gás. Finalmente com espaço garantido, representantes da Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida (COESUS) e da 350.org Brasil estarão novamente presentes, para mostrar aos investidores e ao governo que o modelo energético baseado na total dependência de combustíveis fósseis, que pode levar o planeta à falência múltipla em muito pouco tempo, não é a escolha da sociedade brasileira.  

“A população já disse ‘não’ ao fracking. Desde 2012 estamos presentes em todos os leilões da ANP combatendo arduamente a exploração não convencional de gás e petróleo através dessa técnica, que nós apelidamos no Brasil de ‘gás da morte’. O investidor que se aventurar a concretizar essa empreitada vai encontrar pela frente uma forte resistência nos tribunais, por parte do próprio Ministério Público Federal, que nos apoia, nos poderes legislativos locais e nos setores organizados da sociedade. O fracking, definitivamente, não é uma boa opção. Não é viável economicamente, vide o caso americano, onde quase 70% das empresas faliram, e tampouco é sustentável do ponto de vista socioambiental”, afirmou Juliano Bueno de Araujo, fundador e coordenador nacional da COESUS.

Vinte empresas estão confirmadas para o leilão. Destas, quatro estão sendo processadas pelo governo de Nova York por sua responsabilidade no aquecimento global: as gigantes BP, Exxon, Chevron e Shell. A americana Murphy Oil, uma das inscritas, é parceria da Exxon em dois blocos de águas profundas nas bacias de Sergipe e Alagoas, e já realiza atividades de exploração não convencional através do fracking nos Estados Unidos.

O leilão, a ser realizado no Hotel Pullman, no Rio de Janeiro, será dividido em duas etapas: a parte da manhã contemplará os blocos marítimos e, à tarde, os terrestres. Seriam oferecidos no total 70 blocos em sete bacias sedimentares, abrangendo uma área total de 95,5 mil km². Mas na véspera, o Tribunal de Contas da União (TCU) determinou a retirada dos blocos exploratórios Saturno e Titã, por entender que, dadas as suas localizações nos limites do polígono do pré-sal, poderia acarretar prejuízos aos interesses da União.

Os blocos ofertados em terra estão localizados nas bacias do Parnaíba, nos estados do Maranhão e Piauí, e do Paraná, nos estados do Mato Grosso do Sul e Goiás. A ANP acredita que a arrecadação do governo com os leilões deste ano – a 15ª Rodada e a 4ª Rodada de partilha do pré-sal, prevista para junho – pode superar a previsão inicial de R$ 3,5 bilhões.

A ameaça do fracking

Desde que, fruto de intensa mobilização e pressão da sociedade, a Justiça Federal no Paraná decidiu cancelar os efeitos da 12a Rodada, em 2013, a ANP não explicita mais o uso do fraturamento hidráulico, mais conhecido como fracking, nos editais. Porém, muitos dos blocos ofertados no leilão de hoje, por exemplo, estão localizados em grandes profundidades no subsolo, o que pode indicar a intenção de utilização dessa técnica.

Trata-se de um método não convencional que realiza perfuração vertical e horizontal para extração de petróleo e gás de rochas de xisto. Por utilizar centenas de solventes químicos em sua atividade, e a proximidade com as águas superficiais e subterrâneas, o fracking é altamente contaminante, podendo causar graves prejuízos não só a rios e aquíferos, como também ao ar, ao solo, às atividades agrícolas e à saúde de pessoas e animais.

Além dos impactos socioambientais, a técnica também utiliza milhões de litros cúbicos de água doce que poderiam estar sendo direcionados para consumo, e intensifica as mudanças climáticas, uma vez que libera sistematicamente o gás metano, um dos causadores do efeito estufa e que, no curto prazo, é 86 vezes mais danoso que o CO².

Desde 2012 a COESUS, que reúne entidades civis e religiosas, sindicatos rurais, comunidades tradicionais, povos indígenas, cientistas, representantes da academia e outros, tem levado para diversos estados do país a Campanha Não Fracking Brasil. Hoje mais de 380 municípios já aprovaram leis que proíbem o fracking em seus territórios. O Paraná já conta com uma legislação estadual e o Estado de São Paulo está no mesmo caminho, já tendo aprovado o projeto de lei na Câmara Legislativa.

Nos últimos anos, a campanha tem se expandido para outros estados e regiões, e até países vizinhos, como Uruguai, Argentina e Paraguai, que compartilham com o Brasil a guarda de uma das maiores reservas de água doce subterrânea do mundo e a mais importante da América Latina, o Aquífero Guarani. Com capacidade para abastecer 400 milhões de pessoas, ele vem sendo constantemente ameaçado de contaminação por atividades exploratórias transfronteiriças como o fracking, e isso tem preocupado as populações nos quatro países.

“O governo brasileiro tentou por várias vezes, utilizando de diversos artifícios, calar a nossa voz. Mas a sociedade simplesmente não pode ser silenciada. A campanha tem ganhado cada vez mais força e apoio de diversos setores. Vamos mostrar que, apesar de as grandes empresas do setor petrolífero não quererem enxergar isso, a era dos combustíveis fósseis acabou. Ao estabelecer que o mundo precisa combater urgentemente o aquecimento global, o Acordo do Clima de Paris, de 2015, colocou um prazo de validade na indústria do petróleo. Para cumprir as metas, todo o nosso óleo e gás precisam permanecer no chão – não há outra opção”, defendeu Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora da 350.org no Brasil e América Latina.

Participação da sociedade civil

Diferente do cerceamento de participação que vinha ocorrendo nas últimas rodadas, dessa vez membros da COESUS e da 350.org terão um espaço de fala durante a sessão pública de ofertas da ANP. Sete representantes de diversos estados e regiões do Brasil ameaçadas pelo fracking levarão às empresas investidoras e às autoridades governamentais a mensagem da população brasileira. A oratória será realizada na abertura da parte da tarde, e foi garantida pelo diretor-geral da ANP, Décio Oddone, durante reunião fechada com a coordenação nacional da coalizão no final de fevereiro.

Além de Juliano Bueno e Nicole Figueiredo, outros cinco membros da COESUS falarão em nome da sociedade civil. São eles: Kretã Kaingang, cacique do Paraná e membro da coordenação-executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib); Jardel Miranda, coordenador da Campanha Não Fracking Brasil no Maranhão; Reginaldo Urbano Argentino, representante da Diocese de Umuarama e integrante do Grupo de Trabalho da Mineração da Conferência Nacional do Bispos do Brasil (CNBB); Luís Adalberto Lunitti, agricultor e ex-prefeito de Toledo (PR), primeiro município a aprovar legislação contra o fracking no Brasil; e Suelita Rocker, coordenadora da Campanha Não Fracking em Santa Catarina e Rio Grande do Sul.