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Novembro 30, 2017

Com diferença mínima, MP do Trilhão é aprovada na Câmara

Indigenous protester wearing traditional feathered headdress and orange shirt stands before dark smoke plume, demonstrating against petroleum and coal development in Brazil.
Indigenous protester wearing traditional feathered headdress and orange shirt stands before dark smoke plume, demonstrating against petroleum and coal development in Brazil.

Após um intenso debate em plenário e uma votação apertada na noite de ontem (29), com direito a bate-boca entre parlamentares oposicionistas e da base aliada ao governo, a Câmara dos Deputados aprovou, por 208 votos contra 184, o texto-base da Medida Provisória 795/2017, a famosa MP do Trilhão, que concede isenção fiscal às empresas petrolíferas. Ainda serão votados, na próxima semana, os destaques apresentados ao texto e, logo depois, a MP segue para votação no Senado Federal.

Horas antes da plenária, ambientalistas, indígenas e parlamentares contrários à medida realizaram um ato no Salão Verde da Câmara, com entrevista coletiva e entrega de carta assinada por mais de 120 organizações da sociedade civil ao presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ). A carta foi entregue a Maia pelo cacique Kretã Kaingang, da coordenação-executiva da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil). Na ocasião, o deputado chegou a dizer que a matéria seria votada ontem “de qualquer jeito”.

“Nós indígenas vivemos agressões, perseguições e intimidações diariamente. O atual governo tem representado um completo retrocesso para os direitos ambientais e de populações tradicionais. Nós que estamos em campo vivemos na pele o impacto das decisões políticas deste Congresso. Essa medida é uma afronta a nossos territórios e nosso modo de vida. Viemos aqui denunciar a matança das nossas águas, das nossas terras e dos nossos povos, e não permitiremos que isso siga acontecendo impunemente”, afirmou o cacique.

Uma petição com centenas de assinaturas de pessoas de todo o país também foi protocolada no gabinete da presidência. Do lado de fora, no gramado do Congresso Nacional, a 350.org inflou um balão negro em formato do mapa do Brasil para representar a quantidade de carbono a ser emitida pelos blocos do pré-sal e pós-sal, em pleno momento de implementação do Acordo de Paris e de cumprimento das metas de redução das emissões de gases estufa.

A group of formally dressed professionals engaged in conversation in a hallway. A man in a blue suit and green tie appears to be speaking with colleagues near a dark doorway in an office corridor.

“Não é só a biodiversidade, os povos tradicionais, a economia local, as comunidades de pescadores que vão sofrer os impactos diretos do incentivo à exploração de petróleo no país. Quem sai perdendo com essa MP é o Brasil e o resto do mundo. As nossas emissões já cresceram 9% no último ano, e essa curva só tende a aumentar caso as políticas energéticas impostas pelo governo Temer sigam sendo aprovadas e colocadas em prática. Atingir os objetivos de combate ao aquecimento global requer o abandono urgente dos combustíveis fósseis”, defendeu Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora da 350.org Brasil e América Latina.

Em seu discurso em plenário, o relator da matéria, deputado Júlio Lopes (PP-RJ), usou o argumento de que a matéria “vai gerar bilhões para o Brasil”. Mas não disse às custas de quê ou de quem. Na prática, a MP permite que as despesas das empresas com a compra de máquinas e equipamentos passem a ser dedutíveis do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e do pagamento de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) no Brasil.

Segundo cálculos de estudos técnicos da assessoria legislativa e de orçamento da Câmara, caso seja definitivamente aprovada, a MP pode impor perdas à União da ordem de R$ 40 bilhões ao ano – ou R$ 1 trilhão em 25 anos –, em decorrência da isenção fiscal para empresas estrangeiras que explorarem os campos de petróleo do Brasil. Além disso, a principal crítica da oposição é que a proposta concede renúncia fiscal para empresas estrangeiras em um momento de grave crise econômica, em que o país enfrenta um déficit orçamentário superior a R$ 150 bilhões.

Paralelamente à edição da MP, foi publicado ainda pelo presidente Michel Temer o Decreto 9.128/17, que prorroga de 2020 para 2040 o prazo de validade do chamado “Repetro”, um regime especial de exportação e importação que isenta de tributos federais equipamentos utilizados em pesquisa e exploração industrial de reservas de petróleo e gás natural no país.

“A batalha não está perdida. A MP precisa ser votada até o dia 15 de dezembro, senão precisará ser re-editada pelo presidente no próximo ano. Enquanto sociedade civil, somos parte de um movimento climático global e, diferente das nossas autoridades, honramos nossa palavra e nossos compromissos. Seguiremos fazendo pressão e denunciando essa barbaridade. Se o [Rodrigo] Maia não liga para a manifestação de centenas de brasileiros, o Senado há de nos ouvir!”, completou Nicole.

Confira na imagem abaixo o placar da votação na Câmara. Saiba quem votou contra e quem votou a favor:

Voting results board showing MPV Nº 795/2017 with 208 votes for Sim (Yes), 184 for Não (No), total 392 votes, 1 abstention, and 393 quorum. President Rodrigo Maia presiding.