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Março 22, 2018

Fórum Alternativo encerra atividades no Dia Mundial da Água

Large crowd gathered in an indoor venue with metal truss ceiling. People seated on white chairs attending what appears to be a political or social rally with banners visible overhead.
Large crowd gathered in an indoor venue with metal truss ceiling. People seated on white chairs attending what appears to be a political or social rally with banners visible overhead.

O Fórum Alternativo Mundial da Água terminou nesta quinta-feira (22), Dia Mundial da Água, deixando a seguinte mensagem: “Água não se vende, se defende” e “Água é direito, não mercadoria”, defendendo a água como um bem comum, que deve ser controlado e estar a serviço do povo. Reunidos em Brasília desde o dia 17, povos tradicionais, movimentos sociais, organizações não governamentais e ativistas assinaram conjuntamente a declaração final do encontro, que reafirma a luta contra a privatização e o estabelecimento de propriedade privada sobre esse escasso recurso.

A carta sintetiza as discussões e deliberações tomadas durante as diversas plenárias, debates, oficinas e demais atividades realizadas no Fama, e repudia atividades exploratórias de indústrias como o agronegócio, a mineração e de geração de energia, principalmente através de combustíveis fósseis e pelo fracking, que contaminam águas superficiais e aquíferos. O documento faz aborda também a importância da defesa da democracia, pois “só por meio de processos democráticos é que os povos podem construir o controle social e o cuidado sobre as águas”.

A carta também traz uma crítica ao Fórum Mundial da Água, evento “oficial” que reuniu governos, empresas, parlamentares, juízes e especialistas. “O resultado desejado pelas corporações é a invasão, apropriação e o controle político e econômico dos territórios, das nascentes, rios e reservatórios, para atender aos interesses do agronegócio, hidronegócio, indústria extrativista, mineração, especulação imobiliária e geração de energia elétrica”, diz trecho da declaração.

Durante o fórum alternativo também foram lembrados crimes ambientais, a perseguição e assassinato de lideranças e defensores do meio ambiente e dos direitos humanos. Segundo o último levantamento da organização Global Witness, o Brasil segue sendo o país mais letal para ambientalistas.

Antônia Melo, integrante do movimento Xingu Vivo para Sempre, se posicionou contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte. “A água é vida para todos os povos, mas ela é essencial para os povos e as comunidades tradicionais. Eles não podem viver sem um rio para pescar, não podem viver sem o seu pedaço de terra plantado na beira do rio para ter o seu alimento. Retirá-la deles é uma tirania, é um crime contra a humanidade”, defendeu.

Indigenous activists and supporters raise their hands in solidarity on stage at a protest event, with stage lighting and metal truss framework visible overhead. Banner displays Portuguese text in background.

O cacique da Terra Indígena Recanto dos Encantados e representante da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Junior Xukuru, chamou os presentes a “ouvir mais a natureza”. “Os encantados estão dizendo que estão muito mais felizes por estarmos aqui defendendo a água. Nossas nascentes estão sendo mortas e muitos já tombaram em defesa da água, da mãe terra e de nossos territórios”, frisou.

Zanete, pescadora do delta do Parnaíba, chamou a situação em sua região de “extermínio”: “Água é saúde, sobrevivência. É um latrocínio o que estão fazendo com nossos territórios. Quem vive da pesca tradicional usa os rios como meio de sobrevivência. Os corruptos se unem para envenear nossas águas e nós nos unimos pela libertação da vida.”

O Fama reuniu mais de 7 mil pessoas, articuladas em 450 organizações nacionais e internacionais de todos os continentes, entre representantes de povos originários e comunidades tradicionais, movimentos populares, tradições religiosas e espiritualidades, organizações não governamentais, universidades, pesquisadores, ambientalistas, organizados em grupos, coletivos, redes, frentes, comitês, fóruns, institutos, articulações, sindicatos e conselhos.

Em nome de quê?

Também ocorreu hoje, num dos espaços do Fórum oficial, o lançamento da campanha “Em Nome de Quê”. Desenvolvida pela organização Uma Gota no Oceano, com apoio de parceiros como a 350.org Brasil, a COESUS (Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida) e a Fundação Internacional Arayara, a campanha tem por objetivo mobilizar a sociedade em relação às ameaças que representam as intervenções em nascentes, mananciais e rios, a desconsideração dos direitos dos povos tradicionais, o desrespeito ao meio ambiente, a visão que não leva em conta as futuras gerações e o foco no lucro.

“Os rios são as artérias do planeta. É preciso que eles corram livres e limpos, para garantir a todos o sagrado direito à água, essência da vida. Em nome de quê estamos ferindo mortalmente nossos rios e comprometendo tão seriamente o nosso futuro?” Questionamentos como esse estão colocados no documentário lançado junto com a campanha, que conta com direção do cineasta Luiz Fernando Carvalho e narração da atriz Dira Paes.