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Junho 7, 2017

Leilão permanente de óleo e gás e retorno de Angra 3 pautam reunião do CNPE

Three major nuclear disasters: Chernobyl (1986) showing the damaged reactor, Angra nuclear power plant in Brazil, and Fukushima (2011) with damaged buildings and debris after the tsunami and meltdown.

Sem participação da sociedade civil ou do setor privado, governo debate incentivo à energia nuclear e proposta que encurta processo para concessão e exploração de áreas petrolíferas

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BRASÍLIA — O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) se reúne nesta quinta-feira (08) na sede do Ministério de Minas e Energia (MME), em Brasília, para sua 33a reunião ordinária. Na pauta, dois pontos sensíveis e com forte rejeição da população: o retorno de Angra 3 e a proposta de uma nova política que facilitaria a exploração e produção de petróleo e gás no Brasil. Entre as medidas está a possibilidade da Agência Nacional do Petróleo e Gás (ANP) realizar uma espécie de leilão permanente de áreas já exploradas tanto em mar quanto em terra. Mesmo sabendo a importância do debate, que poderá deliberar sobre regras decisivas para o futuro do setor e do país, incluindo a retomada de uma energia perigosa e extremamente cara como a nuclear, a reunião exclui a participação da sociedade civil e até mesmo do setor privado.

“Tamanha arrogância e pretensão é o que leva o setor energético do governo a achar que pode, a portas fechadas, decidir sobre o nosso solo, nosso ambiente e a saúde do nosso país, sem que a gente seja informado e possa dar nosso parecer sobre isso. Essa postura demonstra mais uma vez a clara falta de vontade para o diálogo e a participação da sociedade na construção de políticas que nos afetam diretamente. Além disso, longe do controle e da pressão da sociedade, o espaço torna-se terreno fértil para a corrupção ativa, já instalada no segmento”, declarou Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora da 350.org Brasil e América Latina e coordenadora nacional da COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida.

De acordo com a nova proposta a ser discutida pelo Conselho, seria colocada permanentemente à disposição do mercado uma lista com as áreas que já produziram óleo e gás e que foram devolvidas pelas empresas concessionárias. A ideia é dar mais agilidade à aprovação de concessões para exploração e produção nessas áreas, que normalmente só poderiam ser concedidas por meio de licitações.

Esse novo formato, porém, não só acabaria completamente com a já escassa transparência no setor petrolífero, como também enfraqueceria ainda mais o processo de licenciamento ambiental, uma das formas que ainda garantem a mínima análise e controle de riscos por parte do órgão ambiental competente, e através da qual é possível fazer valer a participação ativa da sociedade civil, por meio das audiências públicas que analisam o conteúdo dos Estudos de Impacto Ambiental (EIA) de cada empreendimento.

“Ao invés de apostar em fontes renováveis de energia, dado o grande potencial do país, o governo brasileiro segue priorizando o uso de hidrocarbonetos para geração energética. Incentivando o crescimento e o fortalecimento da indústria fóssil, a maior responsável por emissões de gases do efeito estufa e pelo aquecimento global, o governo vai contra as metas estabelecidas no Acordo de Paris [o qual o Brasil acaba de promulgar, atribuindo ao mesmo força de lei nacional], e caminha de marcha à ré, se afastando ainda mais do Brasil do futuro que as pessoas tanto demandam”, frisa Nicole.

Retrocesso

Outro item da pauta é a retomada das obras para construção da usina nuclear de Angra 3, no Rio de Janeiro. Enquanto países da Europa e Ásia tentam frear a expansão da energia nuclear depois dos desastres causados por Fukushima e Chernobyl, o governo brasileiro insiste em trazer à tona, 33 anos depois, o debate sobre uma das usinas mais caras e controversas da história do país.

A energia nuclear gera desconfiança e desaprovação por parte da sociedade, já que traz consigo temas fundamentais como a falta de segurança, a destinação do lixo atômico, a poluição e contaminação geradas pela liberação de material radioativo, e a possibilidade de graves impactos para a biodiversidade e a saúde das pessoas caso haja qualquer acidente nas usinas. Além de ser uma forma de energia extremamente perigosa, ela é também onerosa para o governo e para os cidadãos, que passarão a pagar taxa extra na conta de luz assim que a usina entrar em operação. Segundo estimativas, a conclusão das obras demandará dos cofres públicos nada menos que R$ 17 bilhões, além dos R$ 7 bilhões já consumidos até o momento.

“A posição adotada pelo governo ao ressuscitar esse tipo de energia, associada ao incentivo para mais combustíveis fósseis, é retrógrada e não condiz com a postura assumida pelo país no cenário político internacional. A saída dos Estados Unidos do acordo climático global só reforça a responsabilidade dos demais países em demonstrar firmeza no cumprimento das metas estabelecidas. Temos energia eólica e solar suficientes para nos tornar uma potência em geração de energia renovável, gerando mais empregos e renda, e assumindo um papel de liderança global na questão climática e ambiental. Mas o que o governo mostra é uma total falta de vontade política para tanto”, defende Juliano Bueno de Araujo, coordenador de campanhas climáticas da 350.org Brasil e fundador da COESUS.

O CNPE já autorizou, em resolução publicada no DOU no dia 24 de maio, a realização pela ANP da 15a e 16a rodadas de licitações de blocos para exploração e produção de petróleo e gás. Antes destes leilões ocorrerá, ainda neste ano, a 14ª rodada, prevista para setembro, e a segunda rodada do pré-sal, que pode acontecer ainda neste primeiro semestre. O governo federal prevê arrecadar até R$ 4,5 bilhões com a realização dos leilões petrolíferos deste ano.

“Repudiamos essas novas propostas e esta reunião fechada, e solicitamos a abertura do debate e diálogo com a sociedade. Não nos deixaremos calar. Vamos seguir expondo a falta de transparência e a clara inclinação do governo a aprovar políticas de incentivo e investimento em combustíveis fósseis e outras fontes danosas, num momento em que resto do mundo clama por uma guinada na direção de energias renováveis, socialmente justas e acessíveis para todos”, frisou Nicole.