Nota da edição: Em 7 de outubro de 2026, a ANP, agência que regula o petróleo no Brasil, vai leiloar centenas de blocos de petróleo e gás, muitos deles no Cerrado do Maranhão. O Cerrado é uma imensa savana tropical que cobre cerca de um quinto do Brasil. Ele abriga uma biodiversidade muito rica e as nascentes de muitos dos principais rios do país, e é um dos biomas mais ameaçados. Uma ação judicial apresentada em 29 de setembro pede a retirada de 15 blocos que se sobrepõem a terras quilombolas e indígenas, que nunca foram consultadas. No começo deste ano, a empresa de gás Eneva desistiu de três blocos em território indígena Krenyê e quilombola depois que o caso apareceu na imprensa. A seguir, Mayron Régis Brito Borges, jornalista e presidente do Fórum Carajás, organização de meio ambiente e direitos humanos do Maranhão, reflete sobre o que está em jogo.
Petição para ajudar a tirar o Cerrado dos leilões da ANP
Raízes antes do céu
Por onde começar, quando se escreve sobre o Cerrado? Para o povo do Maranhão, estado do Nordeste do Brasil, o Cerrado é o próprio chão da vida, muito mais do que uma paisagem. Nenhum bioma cuida tanto do que tem. Dá para ver isso nas plantas: primeiro as raízes descem fundo em busca de água, e só depois elas sobem em direção ao céu. O Cerrado é onde a gente começa, e para onde a gente volta.
Voltar para casa
Todo mês de julho e de dezembro, nas férias escolares, as famílias que tinham ido para as cidades grandes trabalhar e estudar faziam o caminho de volta para casa. A maioria dessas casas ficava no Cerrado. Voltavam pelo que a cidade não podia dar: comida saudável, ar limpo, silêncio, a família e os amigos de antes, rios, riachos e matas, as brincadeiras de criança, uma juventude e uma inocência que tinham ficado para trás.
Por gerações, foram os rios que levaram essa gente. Eles nascem nas chapadas, as partes altas do Cerrado, e descem até as baías de São Marcos e de São José de Ribamar, no litoral da capital, São Luís. O Mearim, o Itapecuru, o Parnaíba, o Munim, o Preguiças: esses rios ligavam o interior à cidade. No caminho, pela água ou pela estrada, as pessoas colhiam frutas nativas, bacuri, murici, buriti, pequi. Tinha para todo mundo. Essa sensação de fartura nunca vai embora de vez, nem décadas depois.
O gás chega
Só que essa fartura agora ficou no passado. Um dos motivos é a extração de gás no Cerrado maranhense pela empresa de energia Eneva, que pressiona as comunidades tradicionais e quilombolas do Vale do Mearim. A Eneva pode dizer que, quando assumiu seu projeto de usina a gás em Santo Antônio dos Lopes, o licenciamento ambiental já estava pronto. Mesmo assim, ninguém explicou às comunidades tradicionais e quilombolas o que um projeto desses ia significar para elas. O que ele faria com a água debaixo da terra e com os rios? Com o ar, o solo, as roças? Com a saúde do corpo e da mente? Com as matas, os bichos, o próprio direito à terra?
A Eneva não pode dizer que não sabia. A empresa devolveu há pouco tempo blocos de exploração de gás que ficavam em cima da Terra Indígena Krenyê e do território quilombola de Peixes. Ela sabe. E mesmo assim continua com os blocos que comprou em Capinzal do Norte, onde vivem várias comunidades quilombolas. E mesmo assim age como se nada estivesse errado nas comunidades quilombolas de Lima Campos.
Outro leilão, a mesma mentalidade
O leilão marcado para outubro mostra, mais uma vez, um jeito de fazer negócio que passa por cima das pessoas e da natureza, desde que a conta do lucro feche. Um dos blocos à venda fica em cima de territórios quilombolas no município de Vargem Grande. Ele também avança sobre a bacia do rio Munim, que leva água a cidades e povoados de todo o leste do Maranhão. E, mais uma vez, ninguém perguntou antes às comunidades, como manda o direito internacional.
Quem quer vender o Cerrado aprendeu a lição ao contrário. Vai atrás do lucro primeiro e deixa para quem vive nessa terra lidar com o que sobra.