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16 Outubro, 2018

Comunidade luta contra usinas a carvão em cidade japonesa ameaçada pela elevação do nível do mar

Débora Gastal

Industrial power plant with red and white striped tower and tall smokestack emitting white steam against blue sky. Highway and urban landscape visible in foreground with buildings stretching to horizon.

Situada entre o mar e a cadeia montanhosa de Rokko, na província de Hyogo, Kobe é considerada uma das mais belas e atrativas localidades da região de Kansai. A cidade também abriga uma usina a carvão de 1.400 megawatts de potência. Atualmente, um grupo formado por moradores, organizações e especialistas em leis e políticas ambientais luta para impedir a construção de duas novas usinas.

Os ativistas afirmam que a proliferação das instalações vai poluir o ar de Kobe com óxidos de enxofre (SOx) e nitrogênio (NOx) resultantes da queima do carvão – o que, entre outros impactos, contribui para o aumento dos casos de doenças respiratórias, além de degradar o ambiente com chuva ácida e prejudicar a vida vegetal.

Group of environmental activists holding a yellow banner with Japanese text and "No Coal, Go Green!" message, protesting against coal-fired power plants in an urban Kobe street setting.
Group of environmental activists holding a yellow banner with Japanese text and "No Coal, Go Green!" message, protesting against coal-fired power plants in an urban Kobe street setting.

Esses não seriam os únicos efeitos da instalação de novas usinas a carvão. Em 2017, o jornal britânico The Guardian listou as cidades do mundo mais suscetíveis à elevação do nível do mar, levando em consideração um aumento de 3 ºC na temperatura média do planeta. Osaka, a oeste de Kobe, foi apontada como uma das mais vulneráveis – estima-se que 5,2 milhões habitantes da cidade seriam afetados por conta da elevação do nível do mar, das ondas de tempestades e de outros impactos das mudanças climáticas. Uma série de cidades da baía de Osaka, incluindo Kobe, são consideradas altamente vulneráveis.

A última edição do Relatório sobre a Lacuna de Emissões, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, afirma que, para manter a elevação da temperatura média global dentro do limite de 1,5 ºC a 2 ºC, conforme a meta do Acordo de Paris, é preciso que nenhuma nova usina a carvão seja construída – além disso, as infraestruturas existentes devem ser paralisadas o quanto antes. A expansão do uso de carvão em Kobe contribui para o aumento da temperatura global e a elevação do nível do mar.

O projeto de construção de novas usinas é liderado pela Kobe Steel, uma das maiores companhias siderúrgicas do Japão, com sede em Kobe. O histórico da empresa no que diz respeito à poluição do ar é notório. Nos anos 1970, a Kobe Steel foi uma das dez empresas levadas aos tribunais por moradores de Kobe em ações relacionadas à poluição do ar – um dos fatores que mais contribuíram para as doenças que afetaram milhares de cidadãos japoneses. Vinte anos depois, as companhias admitiram a culpa e ofereceram indenizações aos afetados.

Os planos da Kobe Steel de construir novas usinas a carvão, em detrimento da ampla rejeição da comunidade, demonstram como a empresa aprendeu muito pouco com as experiências passadas.

Condutas inadequadas no controle de produtos também criaram obstáculos para a Kobe Steel. Em agosto de 2017, a empresa admitiu ter falsificado certificados de resistência e durabilidade de seus metais ao longo de, pelo menos, uma década. Mais tarde, em outubro de 2017, o governo da província de Hyogo suspendeu a avaliação de impacto ambiental da empresa para os projetos de novas usinas, tendo como argumento a desonestidade da empresa ao forjar informações de seus produtos.

Uma pesquisa desenvolvida pela 350.org Japão indica que as instituições financeiras são responsáveis por agravar o problema, ao conceder empréstimos e prestar outros serviços a empresas como a Kobo Steel, que seguem envolvidas com o desenvolvimento da indústria do carvão mesmo após o Acordo de Paris, assinado em 2015. As empresas Mizuho Financial, Sumitomo Financial Group e Mitsubishi UFJ foram as três principais financiadoras, provendo aproximadamente 62% do crédito que pode ser atribuído ao desenvolvimento da indústria do carvão.

A batalha contra novas usinas a carvão segue em curso, enquanto o grupo local leva a Kobe Steel à justiça alegando preocupações relacionadas à poluição do ar e aos riscos das mudanças climáticas.

A professora Haruka Kubo, da Universidade de Konan, que atua no caso, afirmou: “Nos últimos anos presenciamos mais dias de calor extremo e chuvas torrenciais. Os efeitos do aquecimento global nunca pareceram tão reais quanto agora. Afora os impactos inevitáveis para a estabilidade do clima, as usinas serão construídas em áreas vizinhas a regiões de alta densidade demográfica, colocando em risco a saúde de crianças vulneráveis à poluição e de pessoas que padecem de doenças provocadas pelo homem. É óbvio que que essas usinas a carvão provocarão diversos problemas, mas o atual sistema político e legislativo do Japão não tem condições de interromper o projeto. Portanto, decidimos assumir as rédeas dessa batalha e exigir justiça”.

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