Imprensa

Novembro 20, 2017

Em meio à COP, Temer quer aprovar mais subsídios à indústria fóssil

Industrial offshore oil platform at sunset with Portuguese hashtag "MP DO TRILHÃO NÃO" (trillion MP no) overlaid on water and metal structure silhouettes.
Industrial offshore oil platform at sunset with Portuguese hashtag "MP DO TRILHÃO NÃO" (trillion MP no) overlaid on water and metal structure silhouettes.

A 23a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 23) começou nesta segunda-feira (06) em Bonn, na Alemanha, com baixas expectativas. O encontro de líderes mundiais tem como principal objetivo traçar as diretrizes que guiarão a regulamentação e implementação do Acordo de Paris. Dois anos se passaram desde o tratado e quase nada foi feito para honrar os compromissos ali estabelecidos. Ou pior, políticas nacionais – como as do Brasil para o setor de energia – têm feito o exato inverso: estimulado indústrias que ao invés de diminuir irão aumentar exponencialmente as emissões de gases causadores do efeito estufa.

Enquanto o Itamaraty envia seus embaixadores para desfilar nos corredores e posar para as fotos da COP 23, a Câmara dos Deputados, por indicação da Presidência de Michel Temer, se prepara para votar uma Medida Provisória que reduz os tributos a serem pagos por empresas envolvidas nas atividades de exploração, desenvolvimento e produção de petróleo e gás. Segundo um estudo realizado pela assessoria legislativa da Câmara dos Deputados, considerando apenas os campos ofertados no último leilão do pré-sal, a perda pela renúncia fiscal seria da ordem de R$ 40 bilhões por ano, ou R$ 1 trilhão em 25 anos. Somente em 2018, a previsão de rombo nas contas públicas decorrente dos incentivos fiscais – ou da licença para poluir o planeta – é de R$ 16,4 bilhões.

A MP foi editada pela presidência logo antes do leilão, com intenção de estimular ainda mais o interesse das empresas nos blocos. O cálculo do estudo não contabiliza, entretanto, leilões passados, como a 14a Rodada, nem rodadas futuras, como as que estão previstas para acontecer no ano que vem, e que também serão beneficiadas pela MP, caso seja aprovada. Ou seja, o trilhão pode ser apenas a ponta visível do iceberg.

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Na prática, a MP 795/2017, que está na pauta de hoje do Plenário da Câmara dos Deputados, isenta as multinacionais petrolíferas de diversos impostos na exploração dos recursos naturais brasileiros. As empresas podem reduzir o valor a ser pago em seu imposto de renda e na CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido). A medida altera significativamente a tributação da cadeia de produção de bens para a indústria de petróleo e gás, e, caso aprovada, será aplicada a partir de 2018.

O diretor-geral da ANP, Décio Oddone, afirmou no último leilão que existem diversas medidas e projetos tramitando no Congresso para dar mais subsídios à indústria fóssil. Outro exemplo disso é o PL 8178/2017, que propõe a isenção do PIS/Cofins para a receita bruta ganha com a produção, importação ou comercialização de óleo diesel e seus concorrentes.

“Enquanto pastas importantes para o país estão recebendo cortes orçamentários severos, como o MMA [Ministério do Meio Ambiente], que iniciará 2018 com 50% a menos de recursos, o governo quer subsidiar e fomentar a indústria mais poluidora do mundo, a do petróleo. Do ano passado para cá, as emissões do Brasil já aumentaram 9%, e essa curva tende a crescer ainda mais com as atuais políticas energéticas do governo federal. Essa irresponsabilidade precisa ser denunciada e o governo deve ser desmascarado internacionalmente”, defendeu Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora da 350.org Brasil e América Latina.

A priorização dos investimentos em combustíveis fósseis, com direcionamento de 70% dos recursos para carvão, petróleo e gás na próxima década (segundo o Plano Decenal de Expansão de Energia 2026), e a retomada da agenda de grandes leilões de blocos para exploração de petróleo e gás, pode piorar a posição do país – que hoje já ocupa o sétimo lugar – no ranking dos maiores poluidores do mundo.

Mais benefícios às petrolíferas

Publicada no dia 17 de agosto, a MP foi editada para estimular a participação de empresas nos últimos leilões de blocos das camadas pré-sal e pós-sal, conduzidas respectivamente em 27 de outubro e 27 de setembro pela Agência Nacional do Petróleo e Gás (ANP). O relatório da MP foi aprovado no início de outubro na comissão mista do Congresso Nacional criada para analisar a matéria, e está agora aguardando votação pelo Plenário da Câmara. Em seguida, ela irá para apreciação do Senado e logo após para o crivo presidencial.

A MP alterou vários pontos da legislação tributária do setor, entre eles a dedução de investimentos. A partir de 2018, as empresas poderão reduzir, por prazo indeterminado, os valores a serem pagos à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) e ao Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ), além da dedução do gasto com compra de máquinas e equipamentos na fase de desenvolvimento.

A MP também suspende o pagamento do Imposto de Importação, do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e da Contribuição para o PIS/Cofins para os bens importados que ficarem definitivamente no país e que forem usados na exploração, desenvolvimento e produção de petróleo e derivados.

Paralelamente à MP, também foi publicado pela Presidência da República o Decreto 9.128/2017 que prorroga de 2020 para 2040 o prazo de vigência do Repetro, regime especial que concede suspensão de tributos federais para equipamentos usados em pesquisa e lavra de jazidas de petróleo e de gás natural.

No meio do caminho, a COP

Presidida pela primeira vez por um país insular, Fiji, esta é também a primeira COP após a saída dos Estados Unidos do acordo climático global. Ela também marca a preparação para o chamado “Diálogo Facilitativo”, que terá início em 2018, e que tem por objetivo discutir a insuficiência das metas propostas por cada país – as Contribuições Nacionalmente Determinadas (ou NDC, na sigla em inglês) – para limitar o aquecimento global a menos de 2oC, com esforços para chegar a 1,5oC.

Enquanto os negociadores discutem a portas fechadas, o tempo – e o clima – urge. Populações em todos os cantos do globo vivenciam os piores efeitos da inação climática: secas severas, inundações, furacões e outros eventos extremos, que matam e deixam milhares desabrigados, refugiados, devastados. Basta olhar para o Vietnã, que enfrenta neste exato momento os estragos do tufão Damrey, que já deixou pelo menos 27 mortos.

De fato essa não é uma COP com grandes expectativas de ações concretas. Mas dela depende o sucesso do Acordo de Paris. O que estará à prova será a manutenção do espírito de união que permitiu o tratado em 2015. E, claro, a capacidade de os líderes mundiais fazerem seu dever de casa e cumprir com os compromissos assumidos.

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