Imprensa

12 Julho, 2018

‘Romper os laços com a indústria fóssil está se tornando a nova norma’

Illuminated "DIVEST" sign stands in front of ornate government building gates at night. Large decorative iron gates with stone pillars and archways frame the classical architecture behind, with street lamps glowing.

Enquanto países como Irlanda e Costa Rica anunciam o desinvestimento completo em combustíveis fósseis, Brasil segue aprovando mais subsídios à indústria do petróleo

Illuminated "DIVEST" sign stands in front of ornate government building gates at night. Large decorative iron gates with stone pillars and archways frame the classical architecture behind, with street lamps glowing.

Dublin, Irlanda — Em um feito histórico, o Parlamento da Irlanda acaba de aprovar, nesta quinta-feira (12), a Lei do Desinvestimento em Combustíveis Fósseis, tornando-se o primeiro país do mundo a retirar totalmente o dinheiro público da indústria de combustíveis fósseis. O projeto de lei exige que o fundo soberano da Irlanda, o Irish Strategic Investment Fund, de $8 bilhões de Euros, abandone todos os investimentos em carvão, petróleo e gás nos próximos cinco anos.

O anúncio veio poucos dias depois do forte apelo do Papa à ação climática em uma conferência de dois dias realizada no Vaticano e no final de uma semana repleta de anúncios de desinvestimento. Os compromissos incluem o desinvestimento total de uma das faculdades da Universidade de Cambridge e a decisão da Igreja da Inglaterra de se desfazer dos combustíveis fósseis até 2023 caso as empresas nas quais ela investe não tomem medidas para cumprir o Acordo de Paris.

O sucesso da lei irlandesa é resultado da incansável campanha da Trócaire, organização focada em ações de justiça climática e membro-chave do Parlamento, além de diversas pessoas em todo o país que realizaram nos últimos anos ações em prol do desinvestimento de combustíveis fósseis, como parte de um movimento global crescente.

“A decisão da Irlanda é uma grande vitória para a campanha do desinvestimento. Os anúncios desta semana, vindos de igrejas, universidades e agora o primeiro desinvestimento completo por parte de um governo nacional, mostram que romper os laços com as empresas de combustíveis fósseis está se tornando a nova norma. Investir nelas nunca foi moralmente correto e agora tampouco é economicamente viável. A única maneira de reverter a crise climática é parar de financiar a indústria fóssil, apoiando o aumento significativo das energias renováveis”, disse Nicolò Wojewoda, diretor da 350.org na Europa.

Para Éamonn Meehan, diretor executivo da Trócaire, a decisão do Parlamento foi uma resposta ao apelo do povo irlandês, que demanda mais liderança na questão climática de quem foi classificado no mês passado como o segundo pior país europeu para ação climática. “Hoje a Irlanda enviou um sinal poderoso à comunidade internacional sobre a necessidade de acelerar a eliminação dos combustíveis fósseis para que as metas climáticas globais sejam cumpridas.”

Segundo ele, a mudança climática é um dos principais propulsores da pobreza e da fome no mundo em desenvolvimento, portanto combatê-la é vital: “Vemos impactos devastadores todos os dias nas comunidades em que trabalhamos. Secas prolongadas, inundações e tempestades já causaram a morte de centenas de milhares de pessoas, e outros milhões precisam de ajuda urgente para sobreviver. Esperamos que esta importante peça legislativa seja promulgada antes do final do ano. Devemos fazer tudo o que pudermos para evitar que as mudanças climáticas revertam as décadas de progresso na redução da pobreza em todo o mundo.”

Governos locais como Nova York, organizações religiosas como a Cáritas International e até mesmo grandes corporações, bancos e seguradoras já anunciaram planos de se desfazer da indústria fóssil. Há algumas semanas, o presidente costa-riquenho, Carlos Alvarado, anunciou que irá proibir completamente o uso de combustíveis fósseis, fazendo da Costa Rica o primeiro país do mundo a descarbonizar completamente sua economia.

Enquanto nações avançam, países como o Brasil seguem o caminho contrário, implementando políticas energéticas atrasadas e aprovando retrocessos legislativosque subsidiam ainda mais as grandes empresas multinacionais do petróleo e gás, ao invés de incentivar o crescimento e fortalecimento das energias renováveis, com fontes abundantes como eólica e solar.

“Esse é um momento crucial para o mundo, onde as escolhas dos governantes irão ditar o futuro de populações inteiras e da própria humanidade. Os países latinos devem se inspirar no exemplo da Costa Rica e seguir o caminho da transição energética. O mercado das energias renováveis cresceu muito nos últimos anos, com tecnologias mais acessíveis e disponíveis, com geração de empregos, justiça social e sustentabilidade ambiental. Temos que aproveitar essas oportunidades e não ficar presos a padrões do passado. As pessoas devem sair de suas zonas de conforto e cobrar verdadeiramente as autoridades eleitas, pois só a pressão popular pode mudar o caminho sem volta para o qual se dirige o planeta”, afirmou Nicole Oliveira, diretora da 350.org América Latina.

Dentro de dois meses, dezenas de milhares de cidadãos ao redor do mundo irão participar da mobilização global Una-se pelo Clima. Comunidades, organizações civis e movimentos populares irão pressionar autoridades e tomadores de decisão em todos os níveis de governo para tomar ações climáticas concretas, imediatas e significativas rumo a um mundo livre de combustíveis fósseis.

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CONTATO
Nathália Clark, 
coordenadora de comunicação da 350.org Brasil e América Latina, [email protected], +55 61 99137-1229