Por Mallika Singhal

Alguns já estão chamando de “Super El Niño”. Mas o que é exatamente o El Niño e o que ele tem a ver com os combustíveis fósseis que impulsionam a crise climática? Aqui está tudo o que você precisa saber.

O que é El Niño?

A cada dois a sete anos, as águas superficiais do Oceano Pacífico tropical central e oriental esquentam significativamente acima de sua temperatura normal — e quando isso acontece, desequilibra o clima de todo o planeta. Esse fenômeno se chama El Niño.

A ciência

Normalmente, os ventos alísios no Pacífico funcionam como um ventilador gigante que sopra pelos trópicos, empurrando as águas quentes da superfície para oeste, em direção à Austrália e à Indonésia — trazendo chuvas, monções saudáveis e oceanos produtivos. Enquanto isso, águas frias e ricas em nutrientes sobem à superfície no leste, mantendo os ecossistemas pesqueiros vivos e os climas estáveis ao longo das costas do Peru e do Equador. Mas, a cada alguns anos, esses ventos enfraquecem, a água quente para de ser empurrada para oeste e o Pacífico oriental esquenta. E, quando isso acontece, esse equilíbrio colapsa: a Austrália e a Indonésia enfrentam seca, a América do Sul enfrenta enchentes, e os sistemas climáticos dos quais bilhões de pessoas dependem são desestabilizados no planeta todo.

El Niño se desenvolve pelo aquecimento da superfície da água do Pacífico. (Getty Images)

O nome El Niño, em espanhol “o menino”, é uma referência ao menino Jesus. Foi originalmente criado por pescadores sul-americanos que notaram uma corrente oceânica quente ao longo das costas do Equador e do Peru por volta do Natal, remontando ao século XVII.

El Niño é uma das fases de um ciclo climático natural maior chamado ENOS (El Niño–Oscilação Sul). Sua contraparte, La Niña (“a menina”), é o oposto: um resfriamento das mesmas águas do Pacífico, com ventos alísios mais fortes. Juntos, El Niño e La Niña balançam os padrões climáticos globais como um pêndulo. O El Niño traz seca ao sul e sudeste da Ásia, à Austrália e ao sul da África, enquanto entrega mais chuva a partes da América do Sul. Já a La Niña inverte muitos desses padrões.

Nenhum desses eventos é, por si só, um desastre — eles fazem parte do ritmo climático natural da Terra há milhares de anos. Os problemas começam quando se tornam extremos, especialmente quando chegam a um mundo que já está sobrecarregado.

O que está acontecendo agora?

Este ano, algo diferente está ocorrendo. O Pacífico acabou de sair de uma fase de resfriamento de La Niña, e o El Niño está se desenvolvendo com velocidade incomum. A questão é até onde ele vai chegar.

Para que um El Niño seja oficialmente declarado, as temperaturas oceânicas precisam subir apenas 0,5°C acima da média. Mas a NOAA (Agência Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) agora calcula 82% de chance do El Niño se desenvolver até julho de 2026 — e este já parece muito mais sério do que seus antecessores.

Um “Super El Niño” ocorre quando as temperaturas sobem 2°C ou mais acima do normal. Esse limite foi ultrapassado apenas algumas vezes na história registrada — em 1982, 1997 e 2015. Cada vez desencadeou secas, enchentes e temperaturas recordes em vários continentes. Mas o El Niño de 1876-78 é considerado um dos mais intensos já registrados e levou a uma fome global que matou cerca de 50 milhões de pessoas na Índia, China, Brasil e no sul da África. Isso representava aproximadamente 1 em cada 28 pessoas vivas na época. Continua sendo o parâmetro para os piores cenários de El Niño na história humana.

Atualmente, as previsões alertam que este El Niño pode empurrar as temperaturas oceânicas 2°C ou até 3°C acima do normal até o fim de 2026. Três das principais agências de previsão do mundo projetam que o El Niño 2026 deve igualar ou superar o El Niño de 1878 em temperatura oceânica. E, ao contrário de 1877, este está chegando a um mundo que já está mais quente, com mais pessoas para alimentar e menos margem para erros. Muitos cientistas preveem que 2027 será o ano mais quente já registrado.

Impactos

As apostas humanas são altas — e têm uma cara diferente dependendo de onde você vive.

A África enfrenta algumas das piores exposições: a seca no Sahel e no sul da África ameaça culturas básicas como o milho, enquanto o leste africano enfrenta enchentes severas. O último grande El Niño deixou mais de 30 milhões de pessoas precisando de assistência humanitária só no sul da África.

Na Ásia, uma monção mais fraca coloca em risco as colheitas de arroz, trigo e algodão da Índia, enquanto condições de seca ameaçam culturas em todo o Sudeste Asiático e na Austrália.

Na América Latina, a América Central enfrenta seca prolongada e insegurança alimentar, enquanto o Peru, o Equador e o sul do Brasil enfrentam o oposto: chuvas intensas e enchentes. As culturas das quais a maioria das pessoas depende — milho, arroz e trigo — tendem a cair globalmente durante os anos de El Niño forte. Em países ricos, isso significa preços mais altos nos alimentos. Em outros, significa fome.

E tudo isso está atingindo um mundo já sob pressão — escassez de fertilizantes, disparada nos preços de energia e cortes generalizados na ajuda exterior eliminaram as reservas que antes ajudavam comunidades vulneráveis a absorver esses choques.

Por que os combustíveis fósseis tornam os impactos do El Niño muito piores

Aqui está o ponto crítico que frequentemente se perde nas manchetes: o El Niño em si não é causado pelas mudanças climáticas. Mas a crise climática, impulsionada pela queima de combustíveis fósseis, está tornando seus efeitos dramaticamente piores.

Pense assim: o El Niño libera temporariamente quantidades enormes de calor armazenado no oceano para a atmosfera. Isso sempre causou perturbações. Mas hoje, esse calor está sendo liberado num mundo que já está mais quente do que em qualquer momento da história humana. Então, quando o El Niño pulsa sobre essa linha de base elevada, as consequências são mais severas do que qualquer evento comparável das décadas passadas.

“O aquecimento global está dando mais energia a todo o sistema para ser liberada por esses eventos de El Niño quando ocorrem.”

— Dr. Daniel Swain, cientista climático

Em outras palavras, o aquecimento global funciona como combustível que amplifica a força natural do El Niño — e essa energia extra tem consequências reais: chuvas mais pesadas e tempestades mais destrutivas; incêndios que se propagam mais rapidamente, já que as temperaturas mais altas ressecam a vegetação; secas mais severas em regiões vulneráveis durante os anos de El Niño; e temperaturas recordes.

Algumas pesquisas também sugerem que o aquecimento dos oceanos pode estar tornando os eventos individuais do El Niño mais intensos, embora os cientistas ainda estejam trabalhando para entender essa relação por completo. O que está claro é que a linha de base com a qual o mundo está lidando já mudou. Cinquenta anos atrás, um El Niño forte causava danos sérios. Hoje, o mesmo evento seria muito mais destrutivo porque a crise climática já elevou as apostas.

Pesquisadores também alertam para um ciclo vicioso: eventos fortes de El Niño atingem regiões dependentes de hidrelétricas com secas, forçando-as a queimar mais carvão e gás para gerar eletricidade — o que, por sua vez, lança mais carbono na atmosfera e impulsiona mais aquecimento. El Niño e combustíveis fósseis passam então a reforçar mutuamente os piores efeitos um do outro.

O que isso significa para a luta climática

Um Super El Niño não é motivo de pânico, mas sim de ação. Esses eventos vêm e vão. O que não vai embora é o aquecimento impulsionado pelos combustíveis fósseis. Cada fração de grau que a queima de carvão, petróleo e gás adiciona à linha de base global torna o próximo El Niño mais destrutivo.

Alguns modelos climáticos agora mostram uma chance real de que 2026 ou 2027 vejam as temperaturas mensais globais ultrapassarem 2,0°C acima dos níveis pré-industriais pela primeira vez na história registrada. São as temperaturas nas quais os sistemas climáticos colapsam, as colheitas falham e a precariedade acumulada por décadas de inação climática se torna catastrófica.

Sabemos exatamente o que fazer. A tecnologia existe. O conhecimento existe. O caminho à frente é uma eliminação gradual, rápida e justa dos combustíveis fósseis e uma transição para a energia renovável que não deixe comunidades vulneráveis para trás.

O El Niño vai passar. A crise climática não vai — a menos que encerremos a era dos combustíveis fósseis.


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