Traduzido de Backchannel: Por Andreas Sieber, chefe de estratégia política da 350.org; João Henrique, gerente nacional da 350.org no Brasil.

A atual crise energética impulsionada pela guerra não é a primeira — nem será a última. Trata-se do sétimo — e de longe o pior — choque do preço do petróleo nos últimos 50 anos. É uma crise fadada a se repetir, a menos que nossas lideranças finalmente decidam enfrentar sua causa raiz: os combustíveis fósseis.

Muitos líderes — do primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, ao presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, e ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi — já estão defendendo uma mudança rumo à energia limpa, reconhecendo que a dependência de combustíveis fósseis é um passivo econômico e um risco crescente à segurança. Com os preços do petróleo novamente girando em torno de US$ 100 por barril e as tensões no Estreito de Ormuz em curso, o Goldman Sachs alerta que os preços podem ultrapassar o pico de 2008, de US$ 147, caso as interrupções persistam.

Esses choques rapidamente se espalham para além do mercado de energia — elevando os custos de alimentos e transportes, encarecendo fertilizantes e comprimindo o orçamento das famílias. Somente no primeiro mês da guerra, os preços mais altos de petróleo e gás adicionaram entre US$ 104 e 112 bilhões em custos globais. Com a expectativa de intensificação do El Niño, aumentando o calor e a demanda por energia, as pressões tendem a crescer — afetando mais duramente os mais vulneráveis.

A alternativa confiável e renovável

Ao mesmo tempo, a crise está acelerando uma mudança há muito necessária. A geração de energia a gás já é de 3 a 4 vezes mais cara do que a solar e a eólica, e mais de 90% dos novos projetos renováveis são mais baratos do que as alternativas fósseis. Os governos estão reagindo — por meio da eletrificação, de medidas de eficiência energética e de investimentos em renováveis domésticas — para reduzir a exposição a choques recorrentes.

Países que investiram em renováveis já estão colhendo os benefícios. A capacidade solar da Espanha ajudou o país a estabilizar os preços da eletricidade apesar da volatilidade do gás, enquanto a expansão solar do Paquistão permitiu economizar mais de US$ 12 bilhões em importações de combustíveis fósseis. A lição é simples: quanto menor a dependência de combustíveis fósseis, mais resiliente se torna a economia.

Com que rapidez os governos vão agir?

A questão hoje não é se, mas quando os países vão acelerar seus planos para se desvincular dos combustíveis fósseis.

A Primeira Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis em Santa Marta foi desenhada não apenas para responder a essa pergunta, mas para ajudar os países a transformar essa transição em realidade, mantendo o impulso para além de um único encontro.

Nesta semana, ministros e autoridades de mais de 50 países, juntamente com lideranças subnacionais, empresas e acadêmicos, estarão focados em transformar compromissos políticos em próximos passos práticos.

Então, o que está na agenda dessa chamada “coalizão dos que fazem”? A agenda é deliberadamente concreta: triplicar a capacidade de energias renováveis e dobrar a eficiência energética até 2030; reformar subsídios aos combustíveis fósseis protegendo as famílias vulneráveis; mobilizar financiamento para economias em desenvolvimento; e apoiar países dependentes de combustíveis fósseis a diversificar suas economias. Os coanfitriões Países Baixos e Colômbia afirmam que Santa Marta não é sobre declarações, mas sobre execução.

O que significa sucesso

Os países precisam convergir em torno de um conjunto focado de prioridades — políticas públicas, modelos de financiamento e marcos legais que possam ser implementados agora. Isso exige priorizar o que funciona, e não apenas o que soa bem.

Três resultados são essenciais: primeiro, um conjunto conciso de soluções acionáveis; segundo, um processo estruturado para acompanhar o progresso e manter o impulso; e terceiro, contribuições concretas para o roteiro global de transição, incluindo desenhos de políticas e abordagens de financiamento que possam ser adotadas e ampliadas.

Essa é a lacuna que Santa Marta está especialmente posicionada para preencher. Embora as negociações climáticas internacionais tenham definido o “o quê”, ainda não entregaram o “como” — particularmente para uma transição justa e ordenada para longe dos combustíveis fósseis.

Se for bem-sucedida, a conferência pode ajudar a transformar os planos nacionais de transição em mais do que documentos de planejamento, convertendo-os em verdadeiros guias de resiliência que reduzem a exposição a mercados voláteis de combustíveis, gerenciam riscos geopolíticos e garantem que os benefícios da transição sejam compartilhados.

Santa Marta não encerrará a crise atual. Mas pode marcar um ponto de virada: do reconhecimento do problema para a construção sistemática de uma saída.