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30 Março, 2023

A ciência deixou claro: a justiça climática é o único caminho possível

Indigenous women in traditional colorful attire and red headscarves protest at a rally, holding patterned textiles and signs with megaphones, advocating for their rights and causes.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) – fórum organizado pela ONU que coleta o conhecimento de dezenas de milhares de cientistas em nível global sobre a crise climática – se manifestou em 20 de março. A publicação do 6º Relatório Síntese marca o fim de um ciclo e é o mais recente apelo por justiça e implementação equitativa de soluções climáticas imediatas.

Não há nada no relatório que nosso movimento já não saiba há anos: já apontamos o dedo para os responsáveis pela crise climática, sentimos seus impactos desproporcionais e sabemos o que precisamos fazer para solucioná-la. Mas o relatório do IPCC é importante porque fundamenta nossas demandas por meio de pesquisas, traduzindo nossas experiências em dados científicos mensuráveis.

Esse é o relatório que o mundo vai citar e alegar estar seguindo nos próximos anos. A questão é: o que essa publicação diz sobre justiça climática?

O que é justiça?

Em 2022, monções sem precedentes e o derretimento de geleiras deixaram um terço do Paquistão submerso. Quase 1.800 pessoas morreram, e milhões perderam casas e seus meios de subsistência. Após o desastre, os preços dos alimentos subiram e estão empurrando milhões de pessoas para a pobreza extrema. Entretanto, o Paquistão é responsável por apenas 0,3% das emissões globais históricas de gases de efeito estufa (GEE). Esse é apenas um exemplo de como a crise climática está afetando as pessoas mundo afora – e uma tradução da palavra “injustiça” na vida real. Mas o que é justiça?

Como todos os conceitos filosóficos, a definição de justiça pode ser apresentada como um termo fugidio, mas, neste caso, a justiça climática é clara como o dia: os responsáveis pelos danos devem pagar pelas soluções – e rápido. Aqueles que lucram com a devastação devem se afastar e deixar que as comunidades assumam o controle do novo mundo que estamos construindo juntos. E eles precisam fazer isso agora. Não se trata de uma escolha, é um imperativo científico.

“Sem ações de mitigação e adaptação urgentes, efetivas e equitativas, as mudanças climáticas ameaçam cada vez mais os ecossistemas, a biodiversidade e os meios de subsistência, saúde e bem-estar das gerações atuais e futuras.”

O IPCC é claro: “o desenvolvimento resiliente ao clima é viabilizado quando os governos, a sociedade civil e o setor privado fazem escolhas de desenvolvimento inclusivas que priorizam a redução de riscos, a equidade e a justiça”. Não há solução de cima para baixo. Soluções reais, equitativas e justas são horizontais e democráticas.

Comunidades na luta

A justiça climática é urgente. Ciclones tropicais atingiram diversas vezes comunidades no Pacífico, nas Filipinas, em Madagascar e no Caribe. Enquanto isso, o Chifre da África sofre com a seca, e ondas de calor ameaçam desproporcionalmente pessoas vulneráveis, a classe trabalhadora, idosos, mulheres e crianças no mundo todo. Cada fração de grau do aquecimento vai piorar as coisas – e as soluções não podem esperar.

Esses impactos não se distribuem de forma equilibrada. Como confirma o IPCC, os “maiores impactos adversos” acontecem na “África, Ásia, América Central e do Sul, [países menos desenvolvidos], em pequenas ilhas e no Ártico” – e, em nível global, são especialmente devastadores “para povos indígenas, pequenos produtores de alimentos e famílias de baixa renda”. E adivinhe? Exatamente essas pessoas e regiões são as menos responsáveis pela crise climática. É hora de restaurar o equilíbrio.

Pacific Island community members pose with solar panels and equipment, holding signs reading "One Pacific Climate Action" and "Solar Scholars" to promote renewable energy and climate action initiatives.

Décadas de injustiça

A indústria dos combustíveis fósseis sabe que suas atividades estão nos levando a mudanças climáticas catastróficas há pelo menos seis décadas. Mas o problema não é apenas que a indústria não paga por isso, e sim que todos nós estamos pagando por eles. Não se trata de uma opinião da 350, tudo isso consta no último relatório do IPCC. “Os fluxos financeiros públicos e privados para os combustíveis fósseis ainda são maiores do que os de adaptação e mitigação”, afirmam os cientistas. As empresas de combustíveis fósseis registraram lucros recordes neste ano. Isso não é justiça.

Em vez disso, a ciência diz que precisamos agir imediatamente, de forma coordenada, focando nas comunidades vulneráveis e no Sul Global. Não se trata de posição política, é um fato científico. O IPCC diz que precisamos de “melhor acesso a recursos financeiros adequados, particularmente para regiões, setores e grupos vulneráveis, além de governança inclusiva e políticas coordenadas”.

Na vida real, isso se traduz em mudanças de leis e políticas que possam retirar as barreiras enfrentadas por projetos de energias renováveis centrados em comunidades. Significa redirecionar os investimentos em carvão, petróleo e gás para iniciativas de energia solar e eólica baseadas em princípios de justiça. Isso também se traduz em fornecer acesso a energia limpa, confiável e acessível para todos, criando oportunidades para que os trabalhadores integrem uma transição justa. A justiça climática não se dá de cima para baixo, ela emerge do empoderamento dessas comunidades nas tomadas de decisões. Isso não ocorre em eventos anuais – acontece todos os dias, em todos os lugares, ou então em lugar nenhum.

Pague pelas soluções agora!

A maior parte do dinheiro investido em soluções climáticas é gasta em medidas de mitigação, como fontes de energia renováveis, mas isso não é suficiente. O relatório do IPCC é enfático: “em 2018, os fluxos de financiamento climático públicos e os fluxos privados mobilizados publicamente, de países desenvolvidos para países em desenvolvimento, ficaram abaixo da meta coletiva da UNFCCC [Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas] e do Acordo de Paris”. A parte do mundo que carrega a responsabilidade não está pagando a conta e, portanto, a janela de oportunidade para agir está se fechando.

Em termos de adaptação, a ciência também falou em alto e bom som: as razões pelas quais comunidades não conseguem acessar o que precisam para se proteger contra os piores impactos da crise climática não dizem respeito a uma suposta falta de soluções disponíveis. As razões são, entre outras, “recursos limitados, falta de engajamento do setor privado e dos cidadãos, mobilização insuficiente de financiamento […], baixo letramento climático (e) falta de compromisso político”. A falta de adaptação afeta novamente aqueles que são os menos responsáveis pelas mudanças climáticas.

Two protesters wearing sunglasses hold an orange sign reading "PAY YOUR CLIMATE DEBT" in blue letters at an outdoor demonstration under a clear sky.

A justiça climática não é um debate. Estamos falando de um imperativo científico que exige a implementação de soluções imediatas. “Os caminhos de desenvolvimento resilientes ao clima […] são progressivamente limitados por cada incremento do aquecimento, em particular além de 1,5 °C.”

A justiça climática diz respeito a conter o aquecimento global abaixo de 1,5 °C e cada fração de grau a partir dessa temperatura.

Justiça climática significa que aqueles que lucram e continuam lucrando com os danos climáticos devem começar a pagar imediatamente para proteger aqueles que foram deixados em posição de vulnerabilidade. O primeiro passo desse percurso é se organizar para exigir soluções e se envolver em sua justa implementação. Articule-se. Mobilize. Participe.