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Agosto 13, 2018

México irá proibir o fracking. Estará o Brasil pronto para fazer o mesmo?

A crowded legislative chamber with protesters holding signs saying "NÃO" (NO) and "350.org BRASIL". People are seated in rows under bright ceiling lights, demonstrating against proposed legislation.
A crowded legislative chamber with protesters holding signs saying "NÃO" (NO) and "350.org BRASIL". People are seated in rows under bright ceiling lights, demonstrating against proposed legislation.
Audiência pública em Santa Rita do pardo, Mato Grosso do Sul, discute a proibição do fracking na região.

“Não haverá fracking no México”, declarou com firmeza o novo presidente eleito do México, Andrés Manuel López Obrador, em sua última coletiva de imprensa. O novo governo está cancelando o que foi anunciado pelo governo anterior, de Enrique Peña Nieto, a que chamou de “revolução energética no México”, com a exploração de depósitos de energia não convencionais.

Há menos de um ano, o Ministério de Energia do México abriu a parte terrestre da Bacia de Burgos, norte do país, para exploração e desenvolvimento de gás natural por empresas privadas, e o governo anunciou que colocaria nove áreas para exploração, na chamada Round 3.3 para hidrocarbonetos não convencionais. Segundo especialistas da Aliança Mexicana contra o Fracking (AMCF), o impacto da exploração dessas áreas recairá sobre um total de 300 quilômetros quadrados, onde vivem 158 comunidades.

De todo o petróleo e gás em subsolo mexicano, mais da metade (53%) dos recursos são não convencionais, o que significa 60 bilhões de barris de óleo equivalente. Esses recursos são superiores à produção acumulada de petróleo em toda a história do país (100 anos). Sem a opção do fracking, o governo terá que apostar em outras formas tradicionais de exploração.

Para a AMCF, o anúncio do novo presidente não é de todo suficiente. “Para bani-lo de uma vez por todas é preciso uma lei escrita, e com a maioria atual no Congresso, isso pode ser feito”, afirmou em comunicado a entidade. Além disso, eles demandam a revisão dos contratos concedidos a empresas privadas e o cancelamento daqueles que apresentarem irregularidades, incluindo os que desrespeitam a Convenção 169 da OIT, com relação aos direitos de comunidades indígenas.

A Aliança também requer que os processos de licitação para a concessão de novos contratos à Pemex ou a empresas petrolíferas privadas sejam parados, até que o futuro governo apresente um plano viável e transparente, incluindo um cronograma claro para abandonar gradualmente a exploração de hidrocarbonetos no país.

América Latina contra o fracking

A técnica de perfuração horizontal usada para acessar reservas profundas de petróleo e gás nas rochas de xisto é notadamente poluente, contaminando o solo, o ar e os lençóis freáticos, além de emitir o gás metano, um dos causadores do efeito estufa. Banida de diversos locais nos Estados Unidos e no mundo, a prática do fracking também tem sido fortemente contestada no Brasil e na América Latina.

Fruto do empenho da campanha Não Fracking Brasil, coordenada pela 350.org Brasil e pela COESUS (Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida), que realiza ações de informação e articulação com diversos setores da sociedade, a técnica já foi proibida em mais de 380 municípios no país, que também já conta com uma moratória de dez anos em curso no Estado do Paraná, e duas outras em processo de tramitação no Estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul.

Enquanto as comunidades locais, com o apoio de especialistas, setores da academia, além de vereadores, deputados, prefeitos e outras autoridades, se mobilizam para tentar frear o avanço dessa técnica de seus territórios, o governo nacional corre na direção inversa. Com a retomada dos leilões de blocos para exploração de petróleo e gás, a Agência Nacional do Petróleo e Gás (ANP) decidiu investir pesadamente na exploração terrestre, incluindo aí a extração por fraturamento hidráulico em grandes profundidades.

Em junho passado, o diretor da ANP Felipe Kury destacou que até 2019 serão colocados à disposição do mercado, em oferta permanente, cerca de duas mil áreas em todo o país. “O Brasil não pode abrir mão dos recursos onshore”, disse ele na ocasião. Para tanto, a ANP está trabalhando num projeto de “poço transparente“, que pretende monitorar as ações de perfuração, fazendo as devidas “análises de risco e respostas a emergências”. O plano prevê a execução de projetos piloto de fracking nas bacias do Parnaíba e do Recôncavo.

Conclusão: enquanto diversas nações mundo afora já baniram essa prática por seus comprovados e irreversíveis impactos ao meio ambiente e à saúde humana, e outros países caminham para uma guinada energética ainda maior, que irá substituir o uso de combustíveis fósseis por fontes renováveis de geração de energia, incluindo vizinhos latinos como a Costa Rica, o governo brasileiro segue preso às velhas estruturas dominadas pela indústria fóssil.

Estará o Brasil aberto e preparado para uma transição energética real? Às vésperas de uma nova eleição presidencial, haverá alguma liderança política disposta a tomar para si esse desafio? São perguntas que o povo brasileiro espera ver respondidas pelo governo que virá, pois os que passaram já demonstraram não ser capazes. Que o exemplo do México ou da Costa Rica sirvam de inspiração.