24 Setembro, 2019

Discursos na Assembleia Geral da ONU confirmam que políticos seguem sem escutar as demandas da sociedade por ação climática imediata

Apesar do recado forte e claro da Marcha Global pelo Clima, muitos governos seguem agindo como se o planeta não estivesse em chamas

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POSICIONAMENTO DA 350.ORG

Os discursos do primeiro dia da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), nesta terça-feira (24), confirmaram uma impressão disseminada pelo mundo todo: a de que os políticos seguem sem escutar a exigência forte e clara das ruas por políticas que realmente ajudem a apagar os incêndios, literais ou metafóricos, que castigam o planeta.

Na sexta-feira anterior à abertura de um dos encontros mais importantes da diplomacia global, cerca de 4 milhões de pessoas marcharam pelas avenidas e praças de mais de 160 países, durante as Manifestações Globais pelo Clima. Inspirados por pessoas como a líder ambiental Greta Thunberg, esses cidadãos foram a público para pedir que os governantes de seus países parem de fingir que será possível resolver a crise climática com medidas paliativas e promessas vagas e de longo prazo. 

“Os cientistas já disseram com todas as letras que temos menos de dez anos para evitar os piores cenários climáticos, aqueles em que o planeta se aquecerá para além de 1,5ºC. Os centros de pesquisa mais respeitados do mundo também já provaram que o aquecimento global é causado pela queima de combustível fóssil, além de uma contribuição significativa do desmatamento e outras fontes de gases de efeito estufa”, disse Rubens Born, diretor interino da 350.org na América Latina. “Não há solução fora da transição energética e da conservação dos biomas, e pessoas de todas as idades, sob a liderança dos jovens, foram às ruas justamente para cobrar dos políticos que acabem com a era do petróleo, da perda de florestas e da injustiça com as populações mais vulneráveis”, completou Born.

O que os governos mostraram na Assembleia Geral, porém, foram discursos vazios ou mesmo contrários à demanda popular. Bastante exemplar dessa desconexão foi o exemplo brasileiro. Em uma fala marcada pelo tom bélico e divisivo, dois pontos se destacaram negativamente no discurso do chefe de Estado do Brasil: a distorção do cenário dos Povos Indígenas no país e a tentativa de se isentar das suas responsabilidades pela destruição na Amazônia e pela inação para reduzir as emissões brasileiras.

No primeiro assunto, o cenário indígena, houve uma série de falhas graves nos dados transmitidos. O principal deles, e que merece correção, é o de que as Terras Indígenas são latifúndios improdutivos. Na verdade, é o contrário: são áreas fundamentais para os serviços ecossistêmicos que asseguram, por exemplo, a produção de água, que é o bem mais precioso para o agronegócio e para a vida nas cidades. Quando as chuvas salvaram São Paulo e Brasília das suas piores crises hídricas, em anos recentes, isso só foi possível porque a vegetação em pé da Amazônia e do Cerrado contribuiu para a evaporação em quantidade da água que caiu no Sudeste e no Centro-Oeste. Quando o produtor de soja do Matopiba tem água para a sua lavoura, ele está sendo beneficiado pelas Terras Indígenas, que garantem que sua produção não vai morrer esturricada. Isso sem contar os benefícios para a biodiversidade e para a riqueza cultural do nosso país que as Terras Indígenas garantem. Atacar esses territórios ou comprometer seu papel como áreas de conservação e provisão de serviços ecossistêmicos  é um caminho suicida para os brasileiros que moram neles e também para os que vivem no seu entorno ou mesmo bem distantes deles. 

Houve, também, um problema grave de representação incorreta da voz dos Povos Indígenas. Todas as organizações representativas da maior parte da população indígena e que, há muito anos, defendem os interesses desses povos, como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), advogam pela conservação das Terras Indígenas como parte essencial da identidade e da sobrevivência dessa população. Era com essas organizações que o governo brasileiro deveria ter dialogado, antes de falar em nome dos Povos Tradicionais e apresentar concepções pouco calcadas na realidade.

Quanto à destruição de trechos importantes da Amazônia e às emissões brasileiras de gases do efeito estufa, não há cientista sério que não diga explicitamente que os responsáveis são a indústria fóssil e as políticas públicas equivocadas para o agronegócio e a mobilidade. 

“A grande maioria dos técnicos, dentro do próprio governo, e os parlamentares que acreditam na Ciência, inclusive na própria base aliada, são a favor de medidas para eliminar o fracking e reduzir a dependência brasileira de petróleo, gás e carvão”, explica Juliano Bueno, coordenador de Campanhas da 350.org na América Latina.

Dizer que as ONGs ambientais atuam contra os interesses do país por denunciarem a corrupção, a ganância e a irresponsabilidade que alimentam a indústria fóssil e a destruição de floresta é mais do que tapar o sol com a peneira. É convenientemente tentar desviar a conversa daquilo que realmente o povo quer saber: quando vamos fazer a transição de que o país precisa, rumo a energias limpas e socialmente justas, transporte coletivo de qualidade e produção agrícola inteligente, com respeito ao meio ambiente?

É essa resposta que os políticos que abriram a Assembleia Geral estão devendo a todos nós.

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Peri Dias
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