Por Anne Jellema, 350.org

Há dez anos, o Acordo de Paris representou uma virada decisiva na luta da humanidade por um planeta habitável. Pela primeira vez, líderes mundiais concordaram em limitar o aquecimento global a 1,5°C e acelerar a transição para além dos combustíveis fósseis. Foi um momento impulsionado não apenas por governos, mas por milhões de pessoas: lideranças indígenas, comunidades na linha de frente, jovens, ativistas de justiça climática, cientistas, grupos religiosos e tantas outras que se recusaram a aceitar a mentira de que a mudança climática era inevitável.

E o que elas conquistaram foi muito mais do que palavras no papel. Antes de Paris, estávamos em uma trajetória de 3,5 graus de aquecimento global – níveis que tornariam grande parte da terra literalmente inabitável. Uma década depois, os compromissos do Acordo de Paris reduziram essa projeção para 2,5 graus. Ainda é alto demais, mas isso indica que temos uma chance real de reduzir essa distância e chegar a um patamar seguro.

Na verdade, a história mais importante do Acordo de Paris não é sobre o que os governos prometeram e não cumpriram, mas sobre o senso de possibilidade que ele criou, e sobre o que o poder popular já conquistou. A história mais importante é o quanto avançamos, porque isso nos dá coragem e esperança para percorrer o trecho final do caminho.

Em todo o mundo, pessoas e comunidades estão deixando para trás combustíveis fósseis caros e poluentes. A energia solar e eólica já são as formas mais baratas de nova geração elétrica na maioria dos países e, quando os governos não as oferecem, as pessoas estão criando soluções com elas por conta própria. A energia solar em telhados quadruplicou no Paquistão e mais do que triplicou na África do Sul em apenas dois anos, enquanto cooperativas de energia surgem em diversas partes do mundo. Oleodutos e gasodutos foram barrados, usinas a carvão canceladas e desativadas. O incrível movimento de “desinvestimento”, iniciado pela 350.org, já bloqueou trilhões de dólares da indústria de combustíveis fósseis, enquanto uma nova economia renovável, intensiva em empregos, ganha força onde quer que haja visão política para apoiá-la. Nestes últimos dez anos, reimaginamos e recriamos como pode ser um futuro mais limpo e justo.

A pergunta agora não é mais se podemos mudar de rumo: desde o Acordo de Paris, essa mudança já começou. A questão é se teremos rapidez, ética e coragem suficientes para chegar a tempo a um futuro seguro. Isso exige uma transição rápida e justa que supere a dependência do carvão, do petróleo e do gás. Significa que empresas e países poluidores precisam pagar pelos danos já causados por suas emissões, e que os recursos cheguem a quem mais sofre. Significa retomar a democracia, hoje capturada por movimentos de extrema direita que usam o medo e a divisão para proteger os poluidores. Acima de tudo, isso significa que o movimento climático precisa colocar no centro as necessidades, aspirações e a liderança de quem vive na linha de frente: mães, trabalhadores e idosos que enfrentam enchentes, secas, ar poluído, ondas de calor e contas de energia impagáveis, bem como crianças que podem não ter um futuro a defender se não agirmos rápido o suficiente.

O Acordo de Paris mostrou do que a cooperação global é capaz. A década seguinte mostrou a força da ação construída pelas pessoas. Agora, é hora de juntar essas duas dimensões e fazer dos próximos anos um período de transformação profunda, coletiva e acelerada.

O ano de 2026 traz oportunidades políticas concretas: o mapa do caminho iniciado na COP30 e o novo impulso internacional para o fim dos combustíveis fósseis abrem espaço para um multilateralismo mais eficaz e inspirador, e para medidas reais que coloquem o mundo, de fato, no caminho de superar o petróleo, o gás e o carvão.

A verdade é simples: o futuro ainda está em aberto. E, juntos, temos o poder de construí-lo com base na justiça, na coragem e na esperança. Mas não há mais uma década a perder. A hora de agir é agora.