7 agosto, 2026

Petrobras lucra com guerra em meio a caos climático

Petroleira somou R$ 52,4 bilhões em lucro em um único trimestre, mas investimentos prometidos na descarbonização não acompanham o mesmo ritmo e o povo paga a conta.

Homens e mulheres protestam em frente à Petrobras que anuncia lucro bilionário

Créditos: Lucas Landau

Em pleno cenário de caos climático, com acirramento de secas, incêndios e enchentes em várias partes do mundo, incluindo o Brasil, a Petrobras divulgou um trimestre de lucro excepcional, fortemente impulsionado pela guerra entre Estados Unidos e Irã. Entre abril e junho, a petroleira teve R$ 52,4 bilhões de lucro líquido, 96,8% a mais do que no mesmo período de 2025, um superlucro em um contexto de aceleração da emergência climática e super El Niño. 

O que explica o número é a produção recorde da estatal,somada à disparada do preço do petróleo, impulsionada pela guerra no Oriente Médio. O barril Brent passou de uma média de US$ 67,82 no segundo trimestre do ano passado para US$ 104,52 neste ano, uma alta de 54%. 

A companhia bateu recorde na produção própria de petróleo no Brasil, que chegou a 2,7 milhões de barris por dia, e também no uso das refinarias. Vale destacar, ainda, o crescimento das exportações, que alcançaram quase um milhão de barris por dia no trimestre. Ou seja, o aumento da produção não tem relação com a segurança energética do país. Constitui, na verdade, um dos motores desse lucro fora do comum.

A mesma crise que encarece a conta de luz, a comida e o custo de reconstruir uma cidade alagada é a que sustenta esses balanços e engorda a conta bancária dos acionistas. Só neste trimestre, a Petrobras aprovou R$ 17,4 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio, distribuídos a acionistas públicos e privados. A crise que a Petrobras ajuda a alimentar volta como custo para quem nunca viu um centavo dos lucros da empresa.

Mesmo com este nível de lucro, a área de Gás e Energias de Baixo Carbono recebeu apenas US$ 203 milhões, o equivalente a 1,95% do total, um valor irrisório. E a maior parte desse pouco foi para o gás fóssil, que está longe de ser uma fonte limpa, e não para as renováveis de fato. Enquanto 84,6% dos investimentos do primeiro semestre deste ano, que somam US$ 10,4 bilhões, foram para o segmento de Exploração e Produção. 

A Petrobras é a maior empresa do país, com escala, engenharia e caixa que nenhuma outra tem. É justamente por isso que apostar tudo num ativo em declínio é o maior risco que ela pode correr. O estudo “A Petrobras de que precisamos”, lançado pelo Observatório do Clima em setembro de 2025, mostra que há um caminho e que ele é financeiramente viável.

Leia posicionamento aqui 

Declarações

“Diante de um lucro tão excepcional, investir migalhas em energia limpa é contradição, não estratégia. Uma estatal existe para servir ao país, não para repetir a lógica de qualquer petroleira privada. O caminho existe e é viável. Não falta dinheiro nem engenharia. Falta visão de longo prazo e coragem política.” João Cerqueira, Diretor da 350.org Brasil. 

“Em plena crise climática, lucros impulsionados por um mundo em conflito e distribuição de ganhos entre os acionistas da Petrobras não deveriam ser o principal foco da companhia. A empresa deveria estar preocupada em se transformar em líder na direção da transição justa. Infelizmente, faz o contrário disso” Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima.

“A Petrobras não pode continuar tratando a crise climática como um problema para o futuro enquanto celebra lucros excepcionais no presente. Os resultados financeiros da empresa mostram que há recursos e capacidade para liderar uma transição energética justa — mas isso exige mudar a prioridade: em vez de investir cada vez mais na expansão da fronteira do petróleo, é preciso usar sua força econômica para preparar o Brasil para um futuro além dos combustíveis fósseis.” Carolina Marçal – Coordenadora de Projetos ClimaInfo

Sobre A Petrobras de que Precisamos – Em 2025 o Observatório do Clima lançou o posicionamento “A Petrobras de Que Precisamos”, que detalha as medidas necessárias para que a Petrobras lidere uma transição justa de verdade. Entre as recomendações estão a priorização de investimentos em fontes de baixo carbono, a realocação de investimentos planejados em novas refinarias para ampliar a participação de combustíveis de baixo carbono em sua linha de produtos e ampliação nos investimentos em biocombustíveis, sobretudo os de segunda e terceira geração, diesel verde (HVO) e SAF. 

***
Informações para imprensa:

350.org Brasil
Livia Lie – 55 11 9 8136-0287

Climainfo

Pamela Gouveia – 55 11 96330-9555

Observatório do Clima
Solange A. Barreira –  55 11 9 8108-7272