Por João Cerqueira, diretor da 350.org Brasil, e Isabella Galante, especialista de comunicação

Nos próximos meses, milhões de brasileiros sentirão mais uma vez o peso da energia no orçamento. A previsão é que a conta de luz suba entre 6% e 7% acima da inflação. Em um país que gera cerca de 88,2% da sua eletricidade a partir de fontes renováveis. Somos, no papel, um caso de sucesso energético. E, ainda assim, nossa conta de luz está entre as 15 mais caras do planeta, comprometendo em média 10% da renda das famílias brasileiras, a maior proporção em relação à renda entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e mais que o dobro do que pagam famílias nos Estados Unidos ou no Canadá.

Em um ano eleitoral, o custo de vida aparece entre as maiores preocupações da população. Segundo uma pesquisa do Ideia, 74,7% dos brasileiros consideram esse tema determinante para seu voto. Mas existe uma pergunta que ainda recebe pouca atenção: quem está lucrando com esse aumento dos custos?

Uma parte significativa do que o brasileiro paga todo mês, para além da energia que consome, é pelos custos que a indústria de combustíveis fósseis transfere, silenciosamente, para a sociedade.

Quando o conflito no Oriente Médio provocou uma disparada nos preços internacionais do petróleo e do gás, os impactos chegaram rapidamente ao bolso dos consumidores. O transporte particular ficou mais caro, a produção de alimentos encareceu e os custos energéticos aumentaram em diversos países. Como quase dois terços da população mundial vivem em países que dependem da importação de combustíveis fósseis, o efeito foi global.

O Brasil também sentiu isso, ainda que de forma mais tímida, porque o governo fez esforços para conter o repasse do aumento à população. Mas o episódio expôs, uma vez mais, o quanto depender de um sistema instável nos coloca em risco permanente. Crises do petróleo não são exceções. São a regra. A gente já viu várias nas últimas décadas, e sempre haverá uma próxima à vista.

Enquanto as famílias precisavam cortar gastos para equilibrar o orçamento, as grandes petroleiras seguiam lucrando com a própria crise. Um novo relatório da 350.org, Out of Pocket, mostra que somente as produtoras de petróleo dos Estados Unidos devem embolsar entre US$ 60 e 63 bilhões em ganhos adicionais só em 2026 por causa da atual crise — mais do que o dobro do que a Agência Internacional de Energia estima ser necessário para levar eletricidade limpa a toda a população da África.

Enquanto isso, famílias do Sul Global enfrentam racionamento de combustível, falta de fertilizantes e disparada no preço dos alimentos. A mesma guerra. Resultados opostos. Trata-se de um sistema em que os riscos são socializados e os lucros privatizados: quando os preços sobem, as famílias pagam mais; quando os lucros aumentam, eles ficam concentrados nas mãos de poucas empresas.

Esse episódio expôs uma fragilidade estrutural: nossa dependência dos combustíveis fósseis transforma guerras, crises e disputas geopolíticas em aumentos de preços para consumidores que não tiveram qualquer participação nesses conflitos.

E o problema não termina aí.

Hoje, a sociedade financia esse modelo de três maneiras diferentes. Primeiro, por meio de incentivos e subsídios públicos. Segundo estimativas do FMI, os subsídios globais aos combustíveis fósseis alcançaram cerca de US$ 7,4 trilhões em 2024. No mesmo período, o financiamento climático destinado aos países em desenvolvimento ficou em torno de US$ 115 bilhões. São países que historicamente queimaram muito menos combustível fóssil para se desenvolver e que são os mais impactados pelos seus efeitos, pela falta de resiliência e capacidade de adaptação.

Depois, pagamos diretamente na conta de luz, no combustível e nos custos de transporte. E, por fim, pagamos mais uma vez por meio dos prejuízos provocados por secas, enchentes, ondas de calor e outros eventos climáticos extremos.

Tem uma ironia cruel nisso: a mesma seca que aciona as termelétricas e encarece a bandeira tarifária é resultado direto da emergência climática alimentada por esses mesmos combustíveis.

No Brasil, a contradição é evidente. Ao mesmo tempo em que as contas de energia aumentam, seguimos discutindo a ampliação de subsídios para fontes caras e poluentes. O carvão mineral responde por apenas 1,4% da matriz elétrica nacional. Mesmo assim, o país destinou em média R$ 1,07 bilhão por ano para subsidiar sua geração entre 2020 e 2024. E o Congresso, em vez de encerrar esse suporte, aprovou a manutenção de subsídios ao carvão até 2040, e pretende estender isso até 2050 por meio do PL 1371/2025, que tramita nessa casa. Na prática, estamos planejando depender mais de uma fonte de energia instável, poluente e mais cara. E essa escolha vai aparecer na ponta, na conta de cada brasileiro.

Essa escolha também afeta o futuro. Os combustíveis fósseis representam atualmente cerca de 10% da matriz elétrica brasileira. As projeções indicam que essa participação pode chegar a 18% até 2040. Ou seja, estamos planejando ampliar a dependência de uma fonte mais cara, mais instável e mais poluente justamente quando deveríamos estar reduzindo essa exposição.

A população já entendeu a direção que quer seguir. Pesquisas mostram que 90% dos brasileiros apoiam investimentos em energias renováveis. Mas também revelam algo importante: 80% não acreditam que a conta dessa transição deva recair sobre os consumidores.

Como as pessoas já estão gastando demais com a conta de luz, não deveria caber a elas pagar por esse processo quando há tantas empresas acumulando lucros extraordinários a partir dessa indústria. Uma transição energética justa precisa ser financiada por quem mais se beneficiou economicamente desse modelo. Isso inclui a criação de fundos para apoiar trabalhadores e comunidades que hoje dependem de atividades ligadas aos combustíveis fósseis, garantindo que ninguém seja deixado para trás.

O debate energético costuma ser apresentado como uma escolha entre proteger o clima ou a economia. Mas o direito à energia acessível e o combate à crise climática não são opostos. São a mesma luta. Um país com sol, vento e água em abundância não deveria ter uma das faturas de energia mais salgadas do mundo, e não deveria precisar mudar de bandeira toda vez que o inverno chega.

Não queremos que o brasileiro pague mais pela energia limpa. Queremos que ele pare de pagar pelo combustível sujo que não pediu, não escolheu, e que aquece o planeta enquanto esvazia sua carteira.