60 mil litros — essa é a quantidade de óleo que a Petrobrás Transporte (Transpetro) afirma ter sido vazada no dia 9 de dezembro, na região da Baía de Guanabara (RJ), próximo ao Rio Estrela. Porém, a realidade encontrada pela equipe da 350.org Brasil, em conjunto com a Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida (COESUS), Instituto Internacional Arayara e a Associação de Homens e Mulheres do Mar (AHOMAR), é completamente distinta.

Desde a madrugada do ocorrido, pescadores foram impedidos de acessar o local. O representante da AHOMAR, Alexandre Anderson de Souza, que acompanhou o incidente desde o início, orientou os pescadores para que tentassem identificar o que estava acontecendo, além de entrar em contato com a Transpetro. “No dia, fomos até o local com representantes do Sindicato dos Pescadores (Sindpesca-RJ) e outros profissionais da região, e conseguimos conversar com técnicos da empresa e do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), que nos alertaram que teria sido um furto e que não poderíamos chegar próximo ao local para identificar o ocorrido”.

Baía de Guanabara

Profissionais com máscaras trabalham na área do rompimento

Embora Alexandre e seus companheiros tenham estranhado a constatação, visto que o local é de difícil acesso, eles solicitaram para que a Transpetro os mantesse informados da situação, para que pudessem entender melhor o que havia acontecido. “A extensão de áreas afetadas é muito grande — naquele dia já tinha alcançado a Ilha de Paquetá, a praia de Mauá toda”. Até o dia 12 de dezembro, quando as equipes se reuniram para retornar ao local, a empresa não havia entrado em contato para atualizar os profissionais que dependem da região para obter seu sustento e, novamente, impediram a entrada no local por terra.

Os impactos do vazamento são visíveis — além de quilômetros de manchas de óleo, presentes tanto no mangue quanto no mar — é possível verificar diversas espécies de animais mortas ou afetadas pelo conteúdo despejado. “As espécies de siri, guaiamum, caranguejo, fora a pesca de robalo e tainha, estão completamente comprometidas. Então nós sabemos que a produção, principalmente dos municípios de Duque de Caxias (RJ) e Magé (RJ) vão ser reduzidas em mais de 50%”, conta o representante do Sindpesca, Maicon Alexandre, chamado pelos colegas de “Pelé”. “Precisamos lembrar que os manguezais são o pulmão da Baía de Guanabara. Eu, que pesco desde os 10 anos de idade, vejo que está cada vez mais difícil pescar, não só por causa de toda essa poluição, mas também porque somos impedidos de entrar em lugares que costumavam ser ‘habitados’ por nós pescadores”, complementa.

Eu, que pesco desde os 10 anos de idade, vejo que está cada vez mais difícil pescar, não só por causa de toda essa poluição, mas também porque somos impedidos de entrar em lugares que costumavam ser ‘habitados’ por nós pescadores — Maicon Alexandre (Pelé), representante do Sindpesca-RJ

Em uma conversa informal com a veterinária e responsável pela área de Meio Ambiente da Transpetro, Tania Ribeiro Junqueira Borges, sugeriu que durantes as buscas no local na tarde do dia anterior (11), não haviam sido encontradas manchas ou animais mortos. Porém, ao adentrar a região por mangue, as equipes puderam verificar que o problema ainda não teria sido sanado. “Quando chegamos ao local, os trabalhadores cessaram suas atividades, provavelmente tentando esconder algo. Detectamos diversos furos tentando identificar de onde estava saindo óleo, embora eles tenham falado que tinha sido apenas um duto e um furo. O questionamento que fazemos é: por que tinham tantos furos, tantos funcionários trabalhando, se já estava tudo resolvido?”, examina o coordenador da campanha Zero Fósseis da 350.org Brasil, Ilan Zugman.

Vazamento na Baía da Guanabara

Foram encontrados mais de cinco buracos cheios de óleo na região

Alexandre conta com inquietação o que viu no local próximo ao rompimento: “Nós vimos um grande aparato de trabalho na região. Muitos caminhões de sucção e vários buracos com óleo dentro. Então, nesse momento, começamos a entender que de fato há alguma coisa errada. Essa tese do furto está caindo, se foi um furto, foi generalizado. Nós acreditamos que possa ser falta de manutenção, que o duto está deteriorado e eles não estão conseguindo justificar isso para a população e para os pescadores”. Na ocasião, Ilan indagou aos profissionais da Transpetro qual seria o estado e a idade do duto, mas eles afirmaram não ter essa informação, complementando que o material utilizado teria integridade para durar pelo menos 100 anos.

Quando questionados sobre uma suposta falha de segurança, anunciaram ser “humanamente impossível acompanhar por 24 horas os mais de 8 mil quilômetros de extensão dos dutos no Brasil inteiro”. Um dos funcionários técnicos, que retirou sua identificação para conversar com a equipe, complementou perguntando se “é possível garantir que ninguém vai entrar em sua casa e roubá-la”, para explicar o ocorrido, acrescentando que seria um caso de segurança pública e não privada. De acordo com Ilan, neste caso existem três questionamentos a serem respondidos e justificados pela Transpetro: “qual a quantidade que realmente foi despejada, qual a real causa do vazamento e se ele de fato foi descontinuado, visto que ainda existe muito óleo na região”.

As equipes presentes em campo seguem buscando informações sobre o vazamento na região, que também foi afetada no dia 18 de janeiro de 2000 — despejando cerca de 1,3 milhões de litros de óleo na Baía de Guanabara, em virtude de um problema também originado em tubulações da Petrobrás. Até hoje os pescadores verificam os impactos na região, fazendo com que muitas espécies de peixe tenham desaparecido, além de não terem recebido nenhum tipo de indenização

Paulinne Rhinow Giffhorn — jornalista da Fundação Internacional Arayara e da Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida (COESUS).

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