15 Dezembro, 2018

Contradições e baixa ambição marcam fracasso das negociações climáticas da COP 24

KATOWICE, Polônia – Apesar dos esforços finais nos bastidores da 24a Conferência sobre Mudança do Clima das Nações Unidas, a COP 24, em busca de apoio ao livro de regras do Acordo de Paris, os representantes presentes não conseguiram elaborar um conjunto de diretrizes fortes o suficiente para acelerar a implementação do tratado. O livro de regras foi adotado ao final, mas pontos cruciais foram deixados para futuras negociações. Também foram por água abaixo as esperanças de que as provas apresentadas em outubro pelo último relatório do IPCC gerassem iniciativas imediatas para ampliar as ações climáticas até 2020.

“O resultado final é novamente desanimador. Os compromissos financeiros ou políticos ainda não estão à altura, e nem mesmo o recado claro e assertivo do IPCC sobre a necessidade de se manter o aquecimento global no limite de 1,5°C foi suficiente para fazer com que alguns dos maiores poluidores do planeta mudassem suas posições. Ao dificultar a chancela oficial do relatório, Estados Unidos, Rússia e Arábia Saudita evidenciam a falta de respeito de seus governos com relação à ciência e ao multilateralismo. Ao ignorar o que precisa ser feito antes que seja tarde demais, eles conferem um caráter irrelevante à Conferência”, afirmou May Boeve, diretora-executiva da 350.org.

Após um ano de diálogos nos níveis nacional e local, com o objetivo de incentivar a elaboração de planos nacionais mais robustos para o clima, análises recentes estimam um planeta 3,3°C mais quente, se os países se limitarem aos planos atuais.

“É desalentador ver como o lobby da indústria fóssil ganhou carta branca nas negociações climáticas, enquanto pelo menos 15 ativistas da sociedade civil foram impedidos de entrar na Polônia“, disse Boeve.

Para ela, a esperança agora reside em todos aqueles que se mobilizaram: “os jovens inspiradores que fizeram uma paralisação escolar sem precedentes em apoio a um futuro livre de combustíveis fósseis; as mais de 1.000 instituições que se comprometeram a retirar seus investimentos, que giram em torno de 8 trilhões de dólares, de projetos com carvão, petróleo e gás; e as diversas comunidades do mundo todo que ainda resistem a essa indústria, exigindo uma transição justa e imediata rumo a fontes de energia 100% renováveis, socialmente justas, ambientalmente sustentáveis e acessíveis para todos.”

“Uma coisa é certa: nós continuaremos ampliando nossos esforços para fazer com que nossas sociedades abandonem o vício tóxico dos combustíveis fósseis e contribuindo para o desenvolvimento de soluções que nos permitam evitar mudanças climáticas catastróficas e desenfreadas. Temos poucos anos para fazer isso acontecer. Não vamos parar até que o planeta esteja livre da dependência dos fósseis e tenhamos um mundo mais igualitário e seguro para viver”, completou.

Parcela Brasil de responsabilidade

O Brasil chegou na COP 24 trazendo um recado extremamente negativo: além da ameaça de deixar o Acordo de Paris, também negou-se, dias antes da conferência, a ser o anfitrião da COP 25, compromisso assumido pelo governo anterior. Apesar de por ora a saída do acordo ainda não ter acontecido na teoria, na prática, as indicações políticas do governo eleito já demonstram o que muitos especialistas temiam.

Ao indicar para liderar o futuro Ministério do Meio Ambiente um advogado alinhado com o setor do agronegócio e inclinado a flexibilizar a legislação ambiental de modo a “fortalecer o setor”, o governo que toma posse em janeiro já deu mostras de que o compromisso com a redução das emissões tanto pelo combate ao desmatamento quanto pela adoção de práticas agrícolas de baixo carbono não está nos planos. Em 2018 a taxa de desmatamento na Amazônia voltou a subir, atingindo seu maior patamar em uma década, e a tendência é de nova alta em 2019.

“São extremamente preocupantes os sinais de que o Brasil, berço da Convenção do Clima das Nações Unidas, poderia abandonar o Acordo de País, além da perda já ocorrida de credibilidade e liderança do país no cenário global. O novo governo está fazendo exatamente o oposto do que precisamos, que é uma indicação de políticas políticas de desenvolvimento sustentável, que priorizem empregos verdes, proteção e recuperação de áreas florestais e a expansão de energias renováveis como solar e eólica“, cobrou Rubens Born, diretor interino da 350.org Brasil e América Latina.

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CONTATO: Claudio Magliulo, Gerente Global de Comunicação da 350.org, [email protected]

NOTA AOS EDITORES:
– Fotos das ações do último dia da COP 24 disponíveis aqui